Domingo, 29 de Abril de 2012

Cabo Ledo

 

Cabo Ledo dista cerca de 160 quilómetros de Luanda e situa-se no parque Nacional da Quissama.

 

Este parque ocupa aproximadamente uma área de 9.600 Km2, é limitado a norte pelo rio Kwanza, desde a cidade de Muxima até o mar, a sul pelo rio Longa, desde a estrada Mumbondo-Capolo até o mar, a oeste pela linha da costa entre a foz do rio Kwanza e a foz do rio Longa (cobre cerca 120 km da costa do Oceano Atlântico) e a leste pela estrada que vai de Muxima, Demba Chio, Mumbondo e Capolo até ao rio Longa.

 

Até ao início da guerra civil em Angola, em 1975, podia encontrar-se na Quissama uma variedade enorme de animais selvagens, tais como leões, elefantes, pacaças, gazelas, golungos (ou veado), gungas (espécie de antílope), nunces, burros de mato, palanca vermelha e palanca negra, hienas, macacos entre outros, além de tartarugas marinhas e aves aquáticas na orla costeira. Era normal encontrar-se manadas de 20 ou mais elefantes e de 500 a 600 pacaças.

 

Existia, também, neste parque uma agropecuária, propriedade da família Mota Veiga, com mais de 50.000 cabeças de gado bovino e algumas centenas de milhar de gado ovino e caprino.

 

A caça furtiva e a guerra civil destruíram praticamente toda a fauna do parque. Segundo as estimativas, em 1955 existiam cercam de 450 leões e em 1997 existiam apenas 5.

 

Está em curso naquela área um projecto de repovoamento animal.

 

A Casa da Reclusão de Luanda tinha um Destacamento em Cabo Ledo, para onde encaminhava os reclusos com penas mais leves ou que estavam quase a acabar de cumprir as suas penas. Aqui ninguém estava preso. Era quase como se estes reclusos estivessem a cumprir uma tropa normal. Se algum se portasse mal regressava à Casa da Reclusão.

 

Fugir era praticamente impossível. De um lado o oceano Atlântico, do outro o rio Kwanza, de outro, ainda, o rio Longa. Muxima, ficava a mais de 80 quilómetros de cabo Ledo. E fugir para onde e porquê? Cabo Ledo era um paraíso e a vida ali era um sonho.

 

Para além da tropa normal (2 alferes, 3 furriéis e 10 a 20 soldados) que tomava conta dos presos, havia cerca de 200 reclusos. Uns dedicavam-se à limpeza do aquartelamento, outros à construção de pequenos apartamentos, no perímetro do destacamento, outros, ainda, à pesca, que servia para a alimentação do pessoal.

 

Com um pequeno barco, que a engenharia nos arranjou, e com cem ou duzentos metros de rede, os nossos pescadores (três ou 4 reclusos que na vida civil já se dedicavam a essa arte) capturavam diariamente cerca de 30 quilos de lagosta e 50 quilos de corvina, entre outras espécies. Era proibido pescar lagosta com menos de 500 gramas e a grande maioria dos pescadores cumpriam aquela regra. Se alguma mais pequena viesse nas redes era lançada novamente ao mar. Talvez, por isso, se explique a grande abundância de crustáceos que havia naquela costa.

 

Apesar da quantidade de lagostas que os nossos pescadores capturavam, estávamos proibidos, pelo Comande da Casa da Reclusão, de as comer (é claro que esta regra nunca era cumprida). O argumento utilizado pelo Comandante era de que havia necessidade de fazer obras na Casa da Reclusão, em Luanda, e as lagostas iriam ser vendidas em Luanda para angariar fundos para esse fim (seria mesmo isso?).

 

Assim, uma vez por semana deslocava-se uma viatura de Luanda a Cabo Ledo para recolher a pescaria. As lagostas eram mantidas vivas em caixas térmicas, porque a lagosta tinha de ser cozida viva. Caso morresse antes de chegar ao tacho o seu destino era o caixote do lixo.

 

A cerca de 300 metros do refeitório dos reclusos havia a messe de oficiais e sargentos, uma pequena sala, com um telheiro contíguo coberto por folhas de zinco e rodeado de mangueiras (planta que existia em grande quantidade na zona) com capacidade para uma dúzia de pessoas, mais que suficiente porque éramos apenas cinco pessoas a frequentar aquele espaço (mas havia que contar sempre com a visitas).

 

O meu meio de transporte para a messe era, quase sempre, um burro selvagem que apanhei e domestiquei. Para o domesticar ainda dei alguns trambolhões, porque o raio do animal não gostava de ser montado e quando me sentia em cima desatava a correr sem destino para me mandar a baixo e quando via que não conseguia dirigia-se para debaixo de uma mangueira a alta velocidade.

 

 

Como a copa da árvore não era muito alta e não cambiamos os dois debaixo dela (o burro e eu montado em cima dele) não tinha outro remédio que não fosse desmontar-me em andamento, o que resultava quase sempre num valente trambolhão.

 

Por fim, o animal tornou-se tão dócil que até para a praia me dava boleia, ficando pacientemente a aguardar que eu me lembrasse de regressar.

 

Nas imediações de Cabo Ledo viviam alguns civis.

 

A uns escassos quinhentos metros do destacamento vivia um casal de brasileiros, o Sr. Lima, a quem chamávamos o “Baixinho”, e a esposa. O Sr. Lima era responsável pelos poços de petróleo que a Sonangol estava a explorar, na zona de Tobias, a 2 ou 3 quilómetros de distância.

 

Um pouco mais distante, a cerca de 30 quilómetros, na praia do Sangano, vivia o Sr. Campos, responsável pela Agropecuária da família Mota Veiga.

 

O nosso relacionamento com estes civis era óptimo, eram sempre convidados para as nossas festas e petiscos e eles retribuíam também da mesma forma.

 

Em Cabo Ledo não havia grande dificuldade em ocupar o nosso tempo livre, que na prática era quase todo o dia. Havia praias de sonho, piscina, campo de futebol, em resumo não nos faltava quase nada.

 

Permaneci cerca de dez meses em Cabo Ledo, foram as melhores férias da minha vida.

publicado por Franquelino Santos às 12:05
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2 comentários:
De José Vitório M Martins a 16 de Maio de 2016 às 22:20
Estive destacado em Cabo Ledo, durante o ano 1969. Não havia reclusos. Quando foi isso?
Um abraço
De Anónimo a 17 de Maio de 2016 às 10:39
Primeiro que tudo quero agradecer o seu comentário.
Estive em Cabo Ledo de Setembro de 1972 a Maio de 1973 e durante aquele período sempre funcionou como destacamento da Casa de Reclusão de Luanda e sempre teve reclusos. Não sei desde quando aquele local começou a ser utilizado para aquele fim, mas vou fazer algumas pesquisas e do resultado que apurar deixarei aqui um comentário.
A titulo de curiosidade, poderá informar-me a que Companhia pertencia quando ali esteve destacado?
Abraço

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