Domingo, 13 de Maio de 2012

Visitas em Cabo Ledo

O acesso ao Parque Nacional da Quissama era controlado pela Guarda-Florestal. Apenas as viaturas militares tinham livre acesso. As viaturas civis necessitavam de uma licença especial e eram impostas algumas restrições aos respectivos condutores, nomeadamente não serem portadores de armas.

 

Por isso, uma das formas que os civis tinham para melhor conhecer aquele parque era conseguir uma boleia numa viatura militar, através de um militar conhecido que fosse para Cabo Ledo. O civil apenas era identificado pela Guarda-Florestal, tendo somente de declarar a hora previsível de regresso.

 

A partir de Cabo Ledo organizavam-se verdadeiros safaris, onde podiam serem vistos vários animais, em estado selvagem, tais como elefantes, leões, zebras, gnus, pacaças, antílopes, veados, palancas vermelhas, palancas negras, manatins, avestruzes, entre outros.

 

A travessia do rio Cuanza era efectuada em jangadas, feitas com vários bidões vazios de combustível, em cima dos quais era fixado um estrado de madeira. A este estrado era fixado um motor que fazia deslocar a jangada. Era neste meio de transporte que pessoas e viaturas atravessavam o rio. Como a jangada não tinha horário regular para efectuar a travessia, os passageiros tinham que combinar com o jangadeiro a hora do seu regresso para que este os fosse buscar à hora marcada.

 

O destacamento de Cabo Ledo era uma autêntica estância de férias, muito procurada. Tínhamos visitas quase diariamente, quer de militares, quer de civis. Eram militares que estavam de férias e aproveitavam para ir descansar ali uns dias, eram altas patentes militares que, acompanhados das suas famílias, iam passar lá o fim-de-semana, eram ainda familiares dos militares que ali estavam colocados que os iam visitar. Até umas senhoras do MNF – Movimento Nacional Feminino aproveitaram para ir passar ali um fim-de-semana à borla, alegando que iam apoiar-nos psicologicamente (como se alguém acreditasse nessa treta).

 

Aliás, o nosso destacamento tinha excelentes condições para receber essas visitas, uma vez que os reclusos, por ordem do Comandante da Casa da Reclusão, construíram ali meia dúzia de pequenos apartamentos para esse fim. Para ali pernoitar as visitas tinham que vir recomendadas por aquele Comandante. Se pagavam estadia não sei, mas isso também era uma questão que pouco me importava.

 

 

 

As visitas almoçavam e/ou jantavam na messe de sargentos. Eu normalmente deslocava-me para a messe de burro, o que aconteceu aquando da visita das senhoras do MNF, acompanhadas de altas patentes militares. Quando cheguei estacionei o meu meio de transporte, junto à messe, atado por uma corda ao pé de uma mangueira, não fosse o animal lembrar-se de ir dar uma volta e forçar-me a fazer o regresso para o destacamento a pé.

 

Uma das senhoras do MNF achou muita graça ao meu meio de transporte e resolveu levantar-se da mesa e ir obsequiar o coitado do animal com um pão, tipo casqueiro alentejano, até porque não foi ela que o pagou. A melhor forma que o burro encontrou de agradecer a oferta foi levantar o seu enorme trólei bater com ele duas vezes na barriga e ao mesmo tempo largar dois sonoros traques. Houve gargalhada geral, a tal senhora ficou vermelha como um piripiri maduro e até ao final da refeição quase já não pronunciou palavra.

 

Durante o almoço, as tais senhoras manifestaram intenção de irem tomar banho, na parte da tarde, na praia de Cabo Ledo, que não conheciam. Fomos adiantando que a praia tinha uma paisagem de sonho, com águas sempre muito quentes, seria uma experiência que não mais esqueceriam.

 

 

Um dos nossos furriéis, o António Rego, sempre muito brincalhão e bem disposto, começou, no entanto, a dizer que havia um pequeno senão, é que de vez em quando apareciam ali pela praia alguns tubarões (nunca lá ninguém vi nenhum e não constava que existissem naquela zona) e na última vez que lá tinha ido foi atacado por um e só por milagre é que escapou. Quando o viu começou a nadar para a areia, o tubarão perseguiu-o durante vários metros e quando estava já quase a sair da água o bicho ainda lhe conseguiu dar uma dentada no pé e arrancar-lhe um dedo.

 

Ao mesmo tempo que contava a história pôs o pé em cima da ponta da mesa, começou a desatar a bota e dizia: vocês querem ver? As senhoras disseram-lhe que não valia a pena e que, pensando melhor, ficavam pela piscina, já que o tempo que tinham era pouco e a praia ficaria para outra vez. Também não quiseram ir dar uma volta de jipe pelo parque, porque achavam que os leões podiam ser perigosos.

 

O certo é que, felizmente, nunca mais voltei a ver as tais senhoras em Cabo Ledo.

publicado por Franquelino Santos às 13:20
link do post | comentar | favorito
|

.Franquelino Santos

.pesquisar

 

.Maio 2016

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

.Visitantes

.Posts recentes

. Recordam-se da "Cuca" ?

. Casa de Reclusão de Angol...

. A ponte do rio Lumai

. Sede, a quanto obrigas

. "Safari" no Parque Nacion...

. A jibóia

. 10º Convívio da CART 2731

. O sargento Singapura

. Brincadeiras inofensivas

. Natal de 1972

.Arquivo do blog

. Maio 2016

. Janeiro 2016

. Maio 2015

. Novembro 2014

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Agosto 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

.tags

. todas as tags

.links

blogs SAPO

.subscrever feeds