Sábado, 19 de Maio de 2012

As quitetas

 

Em Angola eram conhecidas por quitetas, em Lisboa por cadelinhas e no Algarve por conquilhas. Independentemente do nome que se lhes dê, trata-se de um bivalve muito apreciado na nossa culinária, que serve para confeccionar os mais variados pratos e petiscos. Há, inclusivamente, restaurantes e cervejarias que associam o seu nome a este bivalve. Estou a recordar-me, por exemplo, do famoso "Eduardo das Conquilhas", junto à estação de comboios da Parede, na linha Lisboa - Cascais

 

 

Em quase todas as praias da zona de Cabo Ledo, havia quitetas em abundância, talvez até por se tratarem de praias que só eram visitadas quase exclusivamente por militares, uma vez que o acesso ao parque nacional da Quissama era restrito e, na altura, a população (nativos) nesses locais era muito reduzida.

 

A cerca de uma dezena de quilómetros a sul de Cabo Ledo, existia uma praia deserta, a praia do Minguéis, particularmente rica naquela espécie, em que a abundância era tanta que em cerca de meia hora quatro ou cinco pessoas conseguiam apanhar com facilidade mais de 50 quilos de quitetas.

  

Na altura, como desempenhava a função de vagomestre, pensei dar uma refeição diferente ao pessoal (arroz de lagosta com quitetas). Resolvi, por isso, fazer uma visita àquela praia com objectivo de apanhar as quitetas. As lagostas seriam apanhadas pelos nossos pescadores (três ou 4 reclusos que na vida civil já se dedicavam a essa arte) que capturavam diariamente cerca de 30 quilos dos referidos crustáceos.

 

 

 

Acompanhado pelo furriel Rego, pelo sargento Piedade e por mais três ou quatro soldados, cujos nomes já não consigo recordar, deslocámo-nos num unimog à referida praia e começámos a apanhar as quitetas. O mar estava muito ondulado, com ondas de ressaca, ou seja as ondas rebentavam na praia e a água ao escorrer novamente para o mar formava uma onda em sentido contrário. No local da rebentação das ondas já não havia pé. Isso não era impedimento para apanhar as quitetas, mas para tomar banho era preciso muita precaução, porque o mar naquele estado é muito perigoso. É fácil entrar na água e permanecer na ondulação, mas é difícil sair, por causa da onda em sentido contrário. Todos nos dedicámos à apanha das quitetas, à excepção do furriel Rego, que entendeu ir tomar banho. Andava feliz ao sabor da ondulação e gritava para nós "bom mar... bom mar..."

 

Nós lá continuámos a nossa tarefa, enquanto o furriel Rego se deliciava com aquelas ondas. Teríamos apanhado já cerca de 50 quilos de quitetas, quando verificámos que o furriel nos fazia insistentemente sinais e de vez em quando mergulhava. A princípio pensámos que estava na brincadeira, mas rapidamente nos apercebemos que estava em dificuldades.

 

Nadámos imediatamente para junto dele para lhe dar uma ajuda e tentámos encorajá-lo, aconselhando-o a manter-se sereno e nadar calmanente para terra. Quando estávamos a 4 ou 5 metros da areia vinha a contra-onda e arrastáva-nos novamente para mais longe. Fizémos várias tentativas sempre com o mesmo resultado. Era uma luta inglória, alguns também já começavam a apresentar sinais de cansaço e de desepero. Com o mar naquele estado a única forma de sair dali era mergulhar por debaixo da contra-onda, mas o Rego já não tinha discernimento para isso. Assim, pouco ou nada podíamos fazer, a única forma de o trazer para a areia seria estender-lhe uma corda ou uma tábua a que ele se agarrasse e puxá-lo para terra.

 

Pedi aos meus camaradas que se mantivessem junto do Rego, tentanto mantê-lo calmo, sem deixar que ele os agarrasse, porque isso seria muito perigoso, que eu iria a terra tentar arranjar qualquer coisa que nos ajudasse. Contudo, quando nadei para terra, o furriel disse aos restantes que me acompanhassem, porque ele já não iria conseguir sair dali, a pouco mais de 10 metros da areia, tão próximo e tão longe e nós impotentes sem o poder ajudar. E, talvez por já estarem muito cansados, assim o fizeram, deixando o Rego sózinho. Foram momentos dramáticos, que nunca mais conseguirei esquecer.

 

No unimog não tínhamos nenhum material que nos pudesse ajudar, a mata estava ali a meia dúzia de metros, mas era impossível arranjar um tronco ou um ramo de uma árvore, porque não tinhamos forma de os cortar. Foram minutos de desespero, mas finalmente encontrámos uma tábua com pouco mais de um metro, que terá caído de algum barco e deu à costa naquele local. Naquelas praias, que eram praticamente virgens, havia sempre muitos destroços que davam à costa e se acumulavam no fim da areia, junto da orla da mata.

 

Peguei naquela tábua, nadei para junto do Rego e estendi-lha. Ele agarrou-a freneticamente numa extremidade e nunca mais a largou. Nadei, com alguma dificuldade, para a praia, pegando na outra extremidade da tábua, e consegui chegar à zona de rebentação das ondas, onde nos esperavam os restantes camaradas, que tinham formado um cordão humano, e nos conseguiram arrastar para a areia. O Rego bebeu alguns litros de água salgada, eu também a provei, mas o pior tinha passado, e tudo tinha acabado em bem. Nunca mais fomos às quitetas.

 

Já na areia, o Rego confidenciou-me que, quando ficou sózinho, pensou que aquele seria o último dia da sua vida e que o primeiro pensamento que lhe veio à cabeça foi: já não vejo mais a minha mãezinha. De seguida, pegou na faca de mato, cortou um bocado daquela madeira e disse: vou gravar aqui o teu nome e a data e isto há-de acompanhar-me até ao fim da minha vida.

 

As nossas comissões de serviço terminaram, regressámos às nossas casas e cada um seguiu o seu caminho. Já na vida civil fiz várias tentativas para localizar o meu amigo Rego, sempre sem sucesso. Passados cerca de 36 anos, por mero acaso, através de um meu amigo consegui finalmente localizá-lo. Vive em São Gemil, numa sossegada e bonita aldeia de Trás-os-Montes, a cerca de dois quilómetros de Carrazedo de Montenegro, com a sua mãe, uma senhora muito amorosa e muito simpática, que já tive o prazer de conhecer.

 

 

Já o visitei várias vezes, a última das quais em Agosto de 2011. Em ambas as visitas recordou, com nostalgia, o epísódio das quitetas e ainda hoje guarda religiosamente o tal bocado da tábua salvadora.

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publicado por Franquelino Santos às 09:12
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