Segunda-feira, 18 de Junho de 2012

Natal de 1972

O primeiro Natal que passei longe da minha família foi em 1971, na Aldeia Natal, na zona de Santa Cruz de Macocola, isolado no meio da mata, dentro de uma tenda de campanha, com um forte ataque de paludismo.

 

Como já referi num post anterior, foi um dos dias mais horríveis da minha vida.

 

Do Natal de 1972, apesar de continuar afastado família, já tenho melhores recordações.

 

Na altura, encontrava-me colocado no Destacamento da Casa de Reclusão, em Cabo Ledo, onde, sem saber bem porquê, desempenhava funções de vagomestre.

 

As funções eram desempenhadas por um furriel da especialidade, o Pereira, mas um dia foi de férias, não voltou mais a Cabo Ledo e alguém tinha de o substituir. Sem qualquer razão aparente, fui eu, que tinha a especialidade de atirador, o escolhido.

 

Diga-se, em abono da verdade, que desempenhar as funções de vagomestre também não era nada de transcendente. Elaborar as ementas diárias e adquirir géneros para que os cozinheiros pudessem confecionar as refeições até era tarefa fácil, o difícil era consegui pagar os géneros alimentícios com o orçamento atribuído.

 

Cada militar tinha direito diariamente a 20$50 para alimentação, mas esse dinheiro nunca chegava para pagar os géneros requisitados à Manutenção Militar e os produtos adquiridos. Cada vez o orçamento estava mais desiquilibrado e eu era responsável pela saldo negativo.

 

Os géneros alimentícios de longa duração, tais como arroz, massa, grão, feijão, batatas, bacalhau, sal, azeite, vinho, etc. eram requisitados à Manutenção Militar, em Luanda.

 

Os alimentos frescos, tais como frangos, verduras, frutas, etc. eram comprados por mim no Mercado Maria da Fonte, em Luanda.

 

Todas as semanas deslocava-me a Luanda para levantar os produtos requisitados à Manutenção Militar na semana anterior e comprar alimentos frescos no mercado.

 

A carne e o peixe eram adquiridos localmente, em Cabo Ledo. Para o abastecimento de carne, comprava semanalmente um boi ao gerente da Agropecuária Motra Veiga, senhor Campos, que vivia no Sangano. O peixe era pescado, na grande maioria por militares do destacamento de Cabo Ledo, que antes do seu ingresso na tropa já eram pescadores. Ocasionalmente também adquiria peixe, por troca com garrafões de vinho e/ou azeite, aos pescadores que aportavam de vez em quando à praia de Cabo Ledo.

 

Chegou a noite de Natal de 1972 e, apesar da situação deficitária das contas, resolvi servir uma ceia a condizer com a data, onde não faltou o bacalhau com couves e o frango no churrasco, vinho, cerveja, bolo rei, vinho do Porto e outras iguarias.

 

Na ceia esteve presente o chefe do Estado-Maior do Quartel-General da Região Militar de Angola, que, numa acção de psico, resolveu passar a noite de Natal na companhia dos presos do Destacamento da Casa de Reclusão, em Cabo Ledo.

 

Toda a gente se divertiu, comeu e bebeu, alguns até demais. Algum tempo depois da meia-noite, depois de terminada a ceia, um grupo de reclusos insubordinou-se e envolveu-se numa cena de pancadaria, situação que foi rapidamente resolvida, felizmente sem que o Chefe do Estado- Maior se tenha apercebido.

 

No dia seguinte tentámos identificar os responsáveis pela ocorrência dos desacatos, mas face ao mutismo de todos nada se conseguiu apurar. Por isso, foi decidido penalizar todos os elementos do Destacamento com o corte de vinho às refeições durante um mês.

 

Com aquela medida consegui equilibrar o orçamento e resolver o problema do saldo negativo, que era uma grande dor de cabeça para mim. Como diz o velho ditado, há males que vêm por bem.

 

publicado por Franquelino Santos às 07:57
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