Sábado, 16 de Julho de 2011

A recruta

 

Se há dias que nunca mais conseguirei esquecer na vida, o dia 7 de Julho de 1970 é um deles. É a data em fui incorporado no Exército, na Escola Prática de Cavalaria, em Santarém, no CSM - Curso de Sargentos Milicianos, para tirar a recruta. Ali passei cerca de dois meses e meio durante os quais eu e os meus camaradas de infortúnio fomos sujeitos a um tratamento a que não estávamos habituados.

 

 

A passagem da vida civil para a militar foi uma mudança radical. Apesar dos tempos difíceis que se viviam na altura, tinha o meu emprego, estava com a minha família, tinha os meus amigos, enfim poderei dizer que tinha uma vida estabilizada. A tropa tirou-me tudo, deixei de ter nome, passei a ser tratado por um número, deixei de ser gente, passei a ser tratado quase como um animal (o instrutor todos os dias dizia-nos vocês aqui serão tratados três furos abaixo de cão), a alimentação era péssima, as provas físicas muito exigentes e desgastantes e as provas psicológicas arrasadoras.

 

Recordo-me das instruções nocturnas, em que nos obrigavam a caminhar dentro da ribeira de Santarém, onde iam desaguar os esgotos da cidade, e passar de gatas por baixo de túneis com pouco mais de um metro de altura, com água a dar-nos pelo pescoço. Recordo-me, ainda, das instruções nocturnas que começavam às dez da noite e quando por volta da meia noite chegávamos exaustos ao qartel o instrutor dizia vamos dar mais uma voltinha e essa voltinha demorava no mínimo mais duas horas. Nunca esquecerei uma noite em que esta brincadeira se prolongou até à seis da manhã e às sete já tinhamos de estar prontos para mais um dia de instrução. Foram dias muito difíceis aqueles.

 

Mas nem só coisas más aconteceram durante a recruta. Em 27 de Julho de 1970, ocorre a morte de Oliveira Salazar, na sequência do trambulhão que deu de uma cadeira, em 3 de Agosto de 1968. Esse acontecimdento proporcionou-nos a hipótese de uma escapadela até às nossas casas, uma vez que eram concedidos dois dias de licença a quem quisesse assistir às cerimónias fúnebres do ditador. A maioria gozou os dois dias de licença, mas duvido que alguém tenha ido assistir às cerimónias.

 

Para a concessão da licença tínhamos de preencher um papel a que chamavam passaporte, onde era indicado o motivo da licença e a localidade aonde nos pretendíamos deslocar.

 

Alguns dos meus colegas foram sinceros e acabaram por ficar retidos no quartel. É que no passaporte colocaram como destino as suas moradas e todos os passaportes que não tinham como destino Lisboa, cidade onde decorreram as cerimónias fúnebres, foram cortados.

 

 

Tendo sido considerado pronto da escola de recrutas, em 17 de Setembro de 1970, apresentei-me, em 20 de Setembro de 1970, na Escola Prática de Artilharia em Vendas Novas para frequentar a especialidade de atirador de artilharia (a artilharia que nos deram foi uma G3).

publicado por Franquelino Santos às 19:22
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