Sábado, 23 de Julho de 2011

A especialidade

No dia 20 de Setembro de 1971, apresentei-me na Escola Prática de Artilharia, em Vendas Novas, para frequentar a especialidade de atirador de artilharia. Com já referi anteriormente, a artilharia resumiu-se a uma espingarda G3, que iria ser a minha melhor companheira durante mais de dois anos de permanência em Angola.

 

Em Vendas Novas a vida foi bem mais fácil, talvez por já estar um pouco familiarizado com o ambiente militar. Contudo, não faltava diariamente a ordem unida, a instrução física, a instrução nocturna e outras ocupações afins. Talvez a maior dificuldade tenha sido o frio que se fez sentir em Dezembro daquele ano, principalmente durante as instruções nocturnas.

 

Durante a especialidade, a maior parte do nosso tempo era passado no polígono de Vendas Novas, uma extensa área militar, composta por largos hectares de terreno, onde estava instalado o paiol da Escola Prática de Artilharia, sendo que a maior parte desse terreno era mata. Ali, os instrutores tentavam simular um cenário de guerra. 

 

 

Normalmente, a instrução começava com aulas teóricas, onde nos transmitiam ensinamentos sobre guerra subversiva, emboscadas, minas, golpes de mão, assaltos a objectivos, orientação na mata, cuidados a ter nas deslocações, comportamentos a ter com as populações locais, entre outros temas.

 

Depois das aulas teóricas, passava-se à prática. Os instruendos eram divididos em dois grupos, em que um desempenhava o papel das nossas tropas “NT” e o outro de inimigo “IN”.

 

O “IN”, a quem era dado conhecimento do trajecto que ia ser seguido pelas “NT”, ficava encarregado de montar emboscadas e instalar minas ao longo desse percurso. Nas emboscadas eram utilizadas balas de madeira e as minas eram instaladas sem detonador, para evitar acidentes. De vez em quando, quer o “IN” quer as “NT” eram surpreendidos com tiros de bala real. É que o capitão Canelas, um dos capitães mais jovens do exército português naquela altura (penso que teria 23 anos), para tornar o cenário um pouco mais próximo do que iríamos encontrar no ultramar, tinha o hábito de ir amiudadas vezes ao polígono e fazer tiro de bala real por cima da zona onde estávamos a ter instrução. Assim, quando ouvíamos tiros e víamos a ramagem das árvores a cair em cima de nós, a instrução era levada muito mais a sério.

 

Durante a especialidade, alguns instrutores que já tinham efectuado comissões de serviço no ultramar aproveitavam para se vangloriarem de algumas façanhas de que, segundo eles, tinham sido parte interveniente. Lembro-me, por exemplo, de um tenente vangloriar-se que, na mata, em Angola, apercebeu-se que tinha pisado uma mina antipessoal, chamada “bailarina”, (esta mina, depois de pisada, era impulsionada por uma mola e só explodia a cerca de um metro de altura, espalhando os seus estilhaços num raio de muitos metros), reagiu de imediato e com a coronha da espingarda G3 deu uma raquetada na mina, fazendo-a explodir a muitos metros de distância do local, o que evitou uma tragédia para si e para os militares que o acompanhavam.

 

Nós, ingénuos e inexperientes, ouvíamos estas e outras estórias, olhando para os seus narradores com se tratassem de autênticos heróis. No entanto, chegados ao palco da guerra, rapidamente concluímos que não passavam de gabarolices. Infelizmente, quem tinha o azar de pisar uma mina antipessoal, restava-lhe muito poucas hipóteses de sobreviver e quando isso acontecia ficava inválido para o resto da vida.

Durante a instrução fomos sendo preparados psicologicamente para a nossa participação na guerra do ultramar, mas ao mesmo tempo foram-nos dizendo, talvez com a intenção de nos motivar para nos aplicarmos um pouco mais, que os primeiros classificados do curso tinham hipótese de ficarem a dar instrução e não serem mobilizados. 

 

 

Terminei a especialidade em 5 de Dezembro de 1971, com a média final de 15.32 valores, depois da chamada marcha final (uma caminhada de cerca de 30 quilómetros, carregados com a velha espingarda mauser, tenda de campanha, rações de combate, cantil com água, entre outros utensílios), seguida de uma semana no campo. Essa semana, como o nome indica, era passada em tendas, no meio do mato, e pretendia simular já uma situação de guerra real. 

 
 
publicado por Franquelino Santos às 17:49
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