Sábado, 24 de Setembro de 2011

Angolares

 

Quando éramos mobilizados para a guerra do ultramar em rendição individual o Exército adiantava-nos uma verba de 1.000$00, o equivalente nos dias de hoje a 5€, para suportarmos as despesas de alimentação e alojamento até chegarmos à companhia a que nos destinávamos. As viagens eram pagas com requisições de transporte que nos eram entregues nos quartéis. Aquela verba era depois descontada no primeiro ordenado que recebêssemos na província ultramarina.

 

Uma vez que não sabia o que me esperava durante a viagem, como precaução, levei, para além daquele adiantamento, mais 2.000$00. Em Luanda troquei apenas 1.000$00 por angolares e se fosse necessário logo trocaria mais.

 

Aquelas trocas realizavam-se quase sempre em Luanda, na esplanada em frente da Cervejaria Portugália, o ponto de encontro preferido pela tropa portuguesa. Ali havia sempre candongueiros, que queriam trocar escudos por angolares pagando uma percentagem adicional. Normalmente a percentagem era de 10%, mas quando a concorrência era muita a percentagem subia. No meu caso pessoal pelos 1.000$00 recebi 1.100 angolares.

 

Em Angola, em 1971, a diária de um alojamento rondava os 50$00 e cada refeição custava cerca de 20$00. Depois havia sempre os extras, nomeadamente beber uns copos para aproveitar a oferta de um prato de camarão por cada imperial.

 

Os 1.100 angolares voaram rapidamente. Por isso, em Nova Lisboa tive necessidade de trocar os últimos 2.000$00 que me restavam por angolares.

 

Ali já não havia candongueiros para efectuar a troca ou pelo menos eu não os conhecia. Resolvi dirigir-me, por isso,  directamente à Agência do Banco Pinto & Sotto Maior, que existia em frente da estação do CFB para trocar os escudos.

 

Disseram-me que não era habitual efectuar esse tipo de troca mas que, por especial favor, podiam fazê-lo, desde que fosse troca por troca, não havia acréscimo.

 

Mesmo sabendo que estava a ser enganado, não me restou outra solução que não fosse aceitar (a necessidade assim o obrigava).

tags:
publicado por Franquelino Santos às 10:13
link do post | comentar | favorito
|
Sábado, 17 de Setembro de 2011

Nova Lisboa

 

Cheguei a Nova Lisboa (actualmente Huambo) já ao fim da tarde, pelo que a minha primeira preocupação foi arranjar alojamento.

 

Como não conhecia a cidade, aguardei junto à estação dos CFB, cerca de uma hora, que aparecesse um táxi. Espera em vão, ou não havia táxis ou era uma raridade por aquelas paragens.

 

Sem outro meio de transporte, a única solução era ir a pé à procura de alojamento. Havia, contudo, um problema. As malas de que me fazia acompanhar eram demasiado pesadas para as poder transportar e não havia onde as guardar.

 

Mais uma vez, tive de recorrer à lei do desenrascanço. Deixei uma mala para trás e fui colocar a outra cerca de 100 metros mais à frente, sempre com a vista na mala que ficou para trás, não fosse, como diz o ditado popular, o diabo tecê-las. Percorrido esse espaço, coloquei a mala que transportava no chão e voltei a trás para recolher a outra. Voltei a repetir a operação cerca de uma dúzia de vezes, até que, sensivelmente a meio da avenida da estação dos CFB, encontrei uma residencial, se a memória não me atraiçoa, a residencial Porto, onde fiquei alojado durante uma semana.

 

Na manhã do dia seguinte dirigi-me ao quartel de Nova Lisboa e a resposta foi a mesma que me foi dada no Depósito Geral de Adidos, em Luanda, que iam tentar saber onde estava colocada a CART 2731 e que passasse por ali no dia seguinte para saber mais alguma coisa. Esta lengalenga manteve-se diariamente durante uma semana até que, em 10 de Maio de 1971, resolveram "despachar-me" para a ZML (Zona Militar Leste), no Luso.

 

Convém referir que em Nova Lisboa nunca me puseram de serviço, fiquei com os dias totalmente livres. Assim, aproveitei a oportunidade para conhecer a cidade, que era pequena, mas muito simpática e tranquila. O seu clima assemelhava-se muito ao da Metrópole (Portugal).

 

Recordo-me que num desses passeios matinais, quase em frente da residencial onde estava hospedado, encontrei um miúdo, que não teria mais do que 5 anos, sozinho, a chorar. Abordei-o, perguntei-lhe porque chorava e disse-me que tinha perdido a mãe. Perguntei-lhe então se ele sabia onde morava e se queria que eu o levasse a casa. Disse-me que sim. Lá o acompanhei, seguindo as suas indicações, e passado pouco mais de meia hora estava a entregá-lo a uma tia, uma vez que a mãe ainda não tinha chegado a casa, uma vivenda na periferia da cidade. Tinha feito uma boa acção naquele dia, resolvendo o problema da criança, mas penso que aquela mãe terá tido um enorme susto.

 

E, como já anteriormente referi, no dia 10 de Maio de 1971, bastante cedo, lá estava eu na estação do CFB para seguir viagem para o Luso.

publicado por Franquelino Santos às 19:47
link do post | comentar | favorito
|
Sábado, 10 de Setembro de 2011

O machimbombo

 

Em Angola, ao autocarro chamavam machimbombo e ao piripiri gindungo. Até havia quem, por graça, dissesse que já tinha comido machimbombo e andado de gindungo.

 

No dia 3 de Maio de 1971, por volta das seis horas da manhã, lá estava eu na estação dos machimbombos, em Luanda, a fim de seguir viagem para Nova Lisboa.

 

Transportava duas enormes malas, onde guardava todos os meus haveres (roupa civil, roupa militar, calçado, artigos de higiene, etc) que considerei necessários para utilizar durante os dois anos de comissão. Mais tarde, cheguei à conclusão que grande parte daquele equipamento, principalmente roupa civil (até de fatos, camisas de manga comprida e gravatas me fiz acompanhar), não me iria servir para nada. Mas, como diz o ditado, quem vai para o mar avia-se em terra e eu não sabia o que ia encontrar em África.

 

O machimbombo partiu à hora marcada e, por volta das 6h30m da manhã, iniciámos a viagem de cerca de 500 quilómetros, que demorou quase todo o dia a percorrer, com paragens em todos os lugarejos que iam surgindo no percurso. Sempre que havia uma paragem, juntava-se uma pequena multidão de vendedores à volta do autocarro a tentar vender os seus produtos (especialmente frutos tropicais, tais como bananas, ananases, papaias, mamões, abacates, etc.) aos passageiros.

 

Os passageiros, para além de mim, eram todos africanos. Transportavam as mais variadas espécies de mercadorias dentro do veículo. Alguns até transportavam galinhas vivas, que não pararam de chilrear durante toda a viagem. Por outro lado, algumas crianças de tenra idade, devido ao cansaço ou talvez à fome, choravam em altos berros. Foi uma viagem para esquecer.

 

O ambiente pesado no autocarro, contrastava com as belezas naturais que ia encontrando e que proporcionavam paisagens espectaculares. Vi árvores tropicais de grande porte que eu nunca tinha visto, como por exemplo o embondeiro. Vi, ainda, vários animais selvagens, nas bermas das estradas, que assistiam impávidos à passagem do machimbombo.

 

Finalmente, depois de quase dez horas de viagem, cheguei a Nova Lisboa, tendo o machimbombo estacionado junto à estação dos CFB (Caminhos de Ferro de Benguela).

publicado por Franquelino Santos às 17:24
link do post | comentar | favorito
|
Sábado, 3 de Setembro de 2011

Luanda

No dia 27 de Abril de 1971, depois de ter saído de serviço, dirigi-me à Secretaria do Depósito Geral de Adidos, para tentar saber onde estava colocada a CART 2731 e como podia lá chegar. Informaram-me que não sabiam mas iam averiguar, pelo que deveria passar por ali no dia seguinte.

 

Durante uma semana a resposta foi sempre a mesma. Nesse período, fiquei instalado na Messe de Sargentos, na Avenida dos Combatentes, mesmo junto ao BO (Bairro Operário, conhecido por quase todos os militares que passaram por Luanda – era ali que costumavam ir desenferrujar o martelo, mudar o óleo ou dar uma cambalhota, terminologias mais usadas para denominar o acto). 

 

Os dias estavam livres, apenas tinha a obrigação de apresentar-me diariamante na sacretaria do Depósito Geral de Adidos para saber se já tinham localizado a CART 2731. Por isso, aqueles dias deram para conhecer um pouco de Luanda. Era uma cidade moderna, maravilhosa, cheia de vida, diurna e nocturna. Ninguém diria que era a capital de uma província que estava em guerra. 

 

A cervejaria Portugália e a cervejaria Amazonas foram dois locais onde passei algumas horas a matar a sede e a degostar os saborosos camarões que nos ofereciam para acompanhar as imperiais. Fiquei a conhecer o mercado Maria da Fonte, hoje chamado Kinaxixe, e o restaurante A Floresta, que existia próximo, onde as refeições podiam ser acompanhadas por um excelente vinho verde à pressão. Fui, ainda, até à Restinga onde saboriei excelentes lagostas a um preço irrisório. Conheci a avenida Paulo Dias de Novais ou Marginal como era mais vulgarmente chamada, que ficou para sempre na minha retina devido à sua beleza.

 

Com todos aqueles atractivos, os dias passaram-se velozmente. No dia 2 de Maio de 1971, informaram-me na secretaria do Depósito Geral de Adidos que a CART 2731 estava colocada no Leste de Angola. Assim, devia seguir para Nova Lisboa e apresentar-me no quartel daquela cidade, onde me seriam fornecidas mais informações. Deram-me também um bilhete para o machimbombo (o nome dado em Angola aos autocarros) e no dia seguinte, logo de manhãzinha, lá parti em direcção a Nova Lisboa, hoje Huambo.

publicado por Franquelino Santos às 11:47
link do post | comentar | favorito
|

.Franquelino Santos

.pesquisar

 

.Maio 2016

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

.Visitantes

.Posts recentes

. Recordam-se da "Cuca" ?

. Casa de Reclusão de Angol...

. A ponte do rio Lumai

. Sede, a quanto obrigas

. "Safari" no Parque Nacion...

. A jibóia

. 10º Convívio da CART 2731

. O sargento Singapura

. Brincadeiras inofensivas

. Natal de 1972

.Arquivo do blog

. Maio 2016

. Janeiro 2016

. Maio 2015

. Novembro 2014

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Agosto 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

.tags

. todas as tags

.links

blogs SAPO

.subscrever feeds