Sábado, 31 de Março de 2012

Casa de Reclusão

 

A comissão da CART 2731 estava a aproximar-se rapidamente do fim e eu ainda tinha de cumprir mais um ano de serviço.

 

No início do mês de Junho de 1972, A CART 2731 foi colocada no Grafanil, a aguardar embarque para a Metrópole (Portugal) e eu na Casa de Reclusão, para cumprir o resto do tempo de serviço.

 

Recordo, a título de curiosidade, que a guerra colonial ou guerra do ultramar eclodiu em Angola, em Luanda, a 4 de Fevereiro de 1961, com três ataques quase em simultâneo, à prisão de S. Paulo, a uma esquadra de polícia e à Casa da Reclusão, descritos por Reis Ventura, no capítulo A sentinela, do seu livro Sangue no Capim, escrito em forma de conto narrativo, com a particularidade de o comandante naquela altura, o tenente Seara, já falecido, ser ainda o mesmo que encontrei em 1972, agora com o posto de capitão.

 

 A esses ataques seguiram-se os dias de terror de 15 e 16 de Março de 1961, também descritos pelo mesmo autor no citado livro, no capítulo O Alferes Robles.

 

O dia a dia na Casa de Reclusão nada tinha a ver com o que se passava na CART 2731.

 

 

 

Aqui, em Luanda, a minha vida era quase como se estivesse num emprego normal. Entrava às oito horas da manhã, ia almoçar, do meio-dia às duas, retomava novamente o trabalho, e às cinco era a hora da saída.

 

O resto do dia era para a farra. Luanda era uma cidade maravilhosa e tinha muitos locais para ocupar o tempo que restava.

 

Estava alojado na messe de sargentos, na Avenida dos Combatentes e era aqui que, por regra, almoçava e jantava, uma vez que as refeições eram mais baratas. De vez em quando substituía o jantar por uma mariscada, pois uma lagosta de quilo era mais barata que um bife em qualquer restaurante. O camarão era de borla. Bastava pedir uma nocal ou uma cuca (as cervejas que mais se bebiam em Angola) e o empregado servia-nos um prato de camarão para acompanhar.

 

Normalmente, uma vez por semana estava de serviço (sargento-dia) e as 24 horas desse dia eram passadas no interior da Casa de Reclusão, juntamente com os presos.

Para ver fotografias recentes da Casa de Reclusão CLIQUE AQUI

 

 

publicado por Franquelino Santos às 14:20
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Sábado, 24 de Março de 2012

As minhas primeiras férias

 

Estávamos no final do mês de Março de 1972. Faltavam pouco mais de dois meses para a CART 2731 terminar a sua comissão de serviço, eu estava quase a completar um ano de comissão e já tinha direito a um mês de férias, mas ainda não tinha decidido quando nem onde as havia de gozar.

 

 Era preferível esperar mais uns tempos e, depois do regresso à Metrópole da CART 2731, ver onde iria ficar colocado. Decidiria depois. Até porque aquilo em Ambriz já quase eram férias e se fosse colocado numa companhia operacional, aproveitaria então para as gozar e evitar mais um mês de mata.

 

 

Em 1972, O Benfica estava a disputar a Taça dos Campeões Europeus de Futebol e nos quartos de final coube-lhe defrontar a fortíssima equipa do Feyeonnord.  

 

O primeiro jogo foi efectuado na Holanda, onde a equipa da casa ganhou por 1-0 e o seu treinador disse qualquer coisa como "os portugueses no nosso campeonato jogariam por não descer de divisão".

 

O segundo jogo disputou-se no antigo estádio da Luz, no dia 22/3/1972. Eu, com mais alguns colegas, enquanto ouviamos o relato do jogo pela rádio, íamos bebendo umas nocais e comendo umas lagostas, na cantina do quartel, em Ambriz.

 

As datas dos jogos que aqui refiro só as sei porque recorri à internet, mas dos jogos recordo-se quase como se fosse hoje.

 

O jogo com o Feyeonnord foi emocionante, ainda durante a primeira parte o Benfica conseguiu recuperar a desvantagem que trazia da 1ª mão, na Holanda, mas, a pouco mais de 15 minutos do final do jogo, os holandeses marcaram, ganharam vantagem na eliminatória, por força do golo marcado fora, trocavam a bola a meio campo a aguardar o final do jogo e tudo parecia perdido. Foi aí que ressurgiu o verdadeiro Benfca. Aos 81 minutos o Jaime Graça interceptou um bola, lançou de imediato o supersónico Nené, que o fez o 3-1, dando vantagem ao Benfica.

 

Pois bem, o infermo da Luz fez o treinador holandês engolir as palavras que tinha proferido no jogo da primeira mão e o Benfica venceu de forma sensacional por 5-1, com 3 golos marcados nos últimos 10 minutos da partida (talvez os mais famosos 10 minutos à Benfica), para dar mais emoção.

 

Foi no final desse jogo, que decidi vir de férias ao Puto (o diminuitivo pelo qual Portugal era conhecido em Angola) em Abril de 1972, para matar saudades da família e, também, para assistir ao jogo do Benfica para as meias-finais, em Lisboa . 

 

E no dia 18 de Abril de 1972, às 20 horas, lá estava eu no antigo estádio da Luz para assistir ao primeiro jogo das meias finais com o Ajax de Johan Cruyff, campeão europeu na época anterior, bicampeão europeu nessa época e tricampeão europeu na temporada seguinte. O jogo acabou com um empate a zero e o Benfica acabaria de perder o jogo da segunda mão por 1-0, tendo sido eliminado.

 

As férias foram passadas em Lisboa e uns dias no Algarve, em Albufeira, donde sou natural, para matar saudades da família. Os dias passaram-se como um relâmpago e no dia 6 de Maio de 1972 estava novamente de regresso a Angola.

 

Ainda hoje mde recordo da chegada ao aeroporto de Luanda. Quando entrei no avião, em Lisboa, a temperatrura rondava os 10 graus centrigrados e quando saí, no aeroporto de Luanda, a temperatura ultrapassava os 30 graus.  Foi uma sensação indiscritível. Parecia que ia morrer sufocado.

 

No dia seguinte apanhei um avião para Ambriz e, pouco mais de uma hora depois, estava de novo na guerra, ou melhor novamente de férias.

publicado por Franquelino Santos às 11:57
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Domingo, 18 de Março de 2012

Freitas Morna

 

Depois da estadia na zona de Santa Cruz de Macocola, voltámos a Ambriz, onde permanecemos até ao nosso regresso à Metrópole, ou melhor, até ao regresso dos meus ex-camaradas. Eu tive de cumprir mais um ano de comissão de serviço, uma vez que quando fui incorporado na CART 2731, em rendição individual, já esta companhia tinha cerca de um ano de permanência em Angola.

 

Com o regresso a Ambriz, regressámos à boa vida. A praia, o futebol, o cinema e o bar do senhor João, onde nos refrescávamos com umas cucas ou umas nocais (as cervejas mais conhecidas em Angola), acompanhadas por bons pratos de camarão e, por vezes, algumas lagostas, eram os nossos passatempos favoritos

 

Era o descanso do guerreiro e os elementos da CART 2731 bem o mereciam. Mais de um ano de permanência no leste de Angola, longe de tudo e de todos, expostos aos mais variados perigos, onde vimos tombar dois dos nossos camaradas, e seis meses nas matas de Santa Cruz, completamente isolados, sujeitos às mais variadas privações, justificavam este descanso.

 

O único senão eram os destacamentos do Capulo e de Freitas Norma, que estavam a cargo da CART 2731, que tinha de destacar pessoal para lá.

 

O destacamento do Capulo situava-se junto à costa, talvez a menos de uma dezena de quilómetros de Ambriz. O destacamento de Freitas Norma ficava situado um pouco mais distante, junto à ponte do rio Loge, na estrada de Ambriz para Ambrizete.

 

 

O meu grupo de combate foi incumbido de fazer uma comissão de duas semanas neste último destacamento, com a finalidade de proteger a ponte.

 

O destacamento era ponto de paragem das colunas que se deslocavam de Luanda para o norte de Angola, pelo que nos dias de passagem dos MVL’s tínhamos a preocupação de abastecer bem os nossos frigoríficos e nossas arcas com cervejas e refrigerantes para refrescar as gargantas dos nossos camaradas que por ali paravam.

 

Quando não havia colunas, os nossos dias eram muito monótonos. Tinhámos o rio, a cerca de 50 metros do destacamento, que podia servir de distração, mas estava infestado de jacarés. Ainda assim, de vez em quando, ainda arriscávamos uns mergulhos.

 

A pouco mais de cem metros da ponte havia umas quedas de água espetaculares. O som das águas do rio Loge a precipitarem-se de algumas dezenas de metros de altura ouvia-se a quilómetros de distância. Sei que hoje existe nesse local um hotel. Deve ser um local paradisíaco.

 

Quase todas as noites eramos visitados por javalis, que iam comer os restos de comida depositados na lixeira do destacamento. Chegamos a fazer esperas de madrugada para tentar caçar um daqueles exemplares mas nessas noites os bichos nunca apareciam.

 

Depois de quinze longos e monótonos dias regressamos novamente a Ambriz.

publicado por Franquelino Santos às 17:52
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