Sábado, 30 de Julho de 2011

A esperança é a última a morrer

Embora, regra geral, toda a gente fosse mobilizada para a guerra do ultramar, havia sempre uma ou outra excepção. Assim, nessa altura, uma das grandes preocupações, pelo menos a minha, era a de tentar evitar a mobilização.

 

Ao longo da especialidade, os instrutores iam-nos dizendo, provavelmente com o objectivo de nos motivarem, que quem obtivesse melhores notas na especialidade talvez tivesse a sorte de não ser mobilizado. Terminei a especialidade com a nota de 15,32, fui o primeiro classificado do curso e fiquei colocado na Escola Prática de Artilharia, em Vendas Novas, com a missão de dar a especialidade ao CSM do 1º turno de 1971.

 

Comecei, então, a acalentar algumas esperanças de escapar à mobilização, mas o sonho acabou muito rapidamente. No início de Abril de 1971, chegou a notícia que tanto receava, transmitida por um sargento-ajudante "Pode ir imediatamente para casa, vai ter 10 dias de férias, depois apresente-se no Depósito Geral de Adidos, em Lisboa. Está mobilizado para cumprir serviço, em rendição individual, na província de Angola, na CART 2731" Fui o primeiro classificado do meu curso e fui, também, o primeiro a embarcar para a guerra colonial.

 

 

A explicação é simples, a mobilização era efectuada pela ordem inversa da classificação do curso. Acabada a especialidade, todos os meus camaradas, à excepção de cinco, onde eu me incluía, foram mobilizados para formar companhia. A seguir à formação da companhia seguia-se o IAO (Instrução de Aperfeiçoamento Operacional) e só depois se seguia o embarque (normalmente nestas circunstâncias entre a mobilização e o embarque decorriam cerca de seis meses). Eu fui mobilizado, mais tarde, mas em rendição individual (nestes casos, após a mobilização, gozávamos dez dias de férias e seguíamos imediatamente para o ultramar).  

 

Do meu curso apenas escapou um instruendo à mobilização. Era, já na altura, uma figura muito conhecida do nosso futebol, jogava na Académica. Passou depois pelo Benfica, Sporting, Futebol Clube do Porto, Selecção Nacional, etc. Era o nosso saudoso Carlos Alhinho, que infelizmente já não está entre nós. Por ironia do destino, não foi mobilizado para a guerra do ultramar, mas acabou por falecer em Angola, ao cair de um 6º piso num hotel, quando tentava entrar no elevador, que estava em manutenção (a porta do elevador abriu, mas a cabine não estava naquele piso).

 

Ainda houve outra figura também muito conhecida das nossas lides futebolísticas que esteve comigo em Vendas Novas e que não foi mobilizada para a guerra do ultramar. Mas essa é outra estória. Logo na inspecção foi considerado auxiliar, devido à sua pequena estatura, e os auxiliares não eram mobilizados. Apesar ser profissional de futebol, na altura do Vitória de Setúbal (viria a transferir-se mais tarde para o F C Porto), quem o inspeccionou achou que ele não reunia condições físicas para ser integrado no serviço militar normal.

 

E foi assim que a minha esperança de não ser mobilizado para a guerra do ultramar morreu, no princípio do mês de Abril de 1971.

publicado por Franquelino Santos às 18:12
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