Sábado, 15 de Outubro de 2011

MVL

 

Terça-feira, 25 de Maio de 1971. Finalmente, tinha chegado o dia em que iria apresentar-me na minha companhia, a CART 2731, que estava instalada no Luvuei.

 

Logo pela manhã, dirigi-me ao local onde era formado o MVL. Encontrei uma longa fila de camiões civis, encabeçada por um camião militar carregado com sacos de areia. Um unimog encerrava a coluna. Várias outras viaturas militares estavam intercaladas entre as viaturas civis.

 

Apresentei-me ao comandante da coluna, o alferes Morais, dizendo-lhe que queria ir para a CART 2731. Ficou muito admirado por eu não trazer arma e eu fiquei a saber que, por coincidência, o referido alferes pertencia à CART 2731, a companhia onde me ia apresentar. 

 

 

O aparato era impressionante. Os militares estavam todos armados com espingarda automática G3, vários carregadores para a G3 pendurados no cinturão, donde pendiam também, em alguns casos, granadas defensivas e ofensivas. Havia outros que transportavam bazucas e morteiros. Havia, ainda, metralhadoras instaladas em cima de viaturas militares. Aquilo era guerra a sério.

 

O alferes disse-me para ocupar lugar numa das viaturas militares. Procurei então arranjar lugar, mas todas tinham a lotação esgotada, à excepção da viatura que encabeçava a coluna, que apenas tinha um ocupante, o condutor. Assim, perguntei-lhe se me podia dar boleia, disse-me que sim, mas alertou-me para o perigo que corria. Aquela viatura iria encabeçar o MVL e servir de rebenta minas e a picada (caminho de terra batida) entre o Luso e Gago Coutinho era das mais minadas de Angola.

 

 

Agradeci o alerta, mas tive de aproveitar a boleia, já que não tinha outra solução. E lá fui picada fora, sem arma, no banco da frente, sentado ao lado do condutor. Pelo menos tinha uma vantagem em relação aos outros, não iria apanhar pó da viatura da frente. Mesmo assim, quando cheguei ao Luvuei, parecia mais castanho do que branco. Em Angola, aquele pó avermelhado das picadas era horrível, era um dos nossos grandes martírios.

 

Nem sempre as minas rebentavam ao serem pisadas pela primeira viatura. Naquela altura, os guerrilheiros já tinham minas, com um sistema de dentes, que podiam programar para rebentarem à passagem de outra viatura.

 

A viagem decorreu sem incidentes. Pelo caminho houve breves paragens, no Lucusse, onde estava sediado um Batalhão, e no Lunguebungo, onde estava colocado um destacamento de fuzileiros. Mais tarde, fiquei a saber que era raro o MVL em que não rebentava uma mina.

 

Finalmente, no dia 25 de Maio de 1971, por volta das 18 horas, quase um mês depois de ter desembarcado em Luanda, cheguei à guerra. Ainda me recordo da recepção do capitão Pimenta, comandante da CART 2731, que infelizmente já não está entre nós. Sentado à porta do bar, com um copo de whisky na mão, disse-me: “militar vais levar uma porrada, já chegaste a Luanda há um mês, andaste por aí desenfiado e nós aqui à tua espera”. Tentei justificar-me, mas logo percebi que aquilo não passava de uma brincadeira.

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publicado por Franquelino Santos às 10:16
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