Sábado, 5 de Novembro de 2011

Primeira saída para a picada

Quando cheguei ao Luvuei, no dia 25 de Maio de 1971, para ser integrado na CART 2731, em rendição individual, os meus camaradas de armas tinham cerca de 13 meses de comissão e uma vasta experiência de guerra, por força das acções em que já tinham participado. Passaram muitos dias e muitas noites na mata, envolvidos em batidas e operações, tiveram vários contactos (troca de tiros) com o inimigo, sofreram e montaram emboscadas, efectuaram diversos MVL’s (movimento de viaturas logísticas) entre as cidades do Luso e de Gago Coutinho, numa distância de mais de quatrocentos quilómetros, percorridos por picadas minadas, foram protagonistas de rebentamentos de minas anti-pessoais e anti-carro e sofreram inclusive um ataque ao quartel do Luvuei, em 4 de Fevereiro de 1971.

 

A minha experiência de guerra resumia-se à instrução que me tinha sido dada nos quartéis de Santarém e de Vendas Novas, ou seja, não era absolutamente nenhuma. Mas, alguma vez tinha que acontecer a minha primeira saída para a picada. E aconteceu precisamente num dos primeiros dias do mês de Junho de 1971, em data que já não consigo precisar. Mas recordo-me, como se fosse hoje, de várias cenas dessa primeira saída.

 

A CART 2731 tinha um destacamento no Lutembo que era reabastecido semanalmente a partir do quartel do Luvuei. A distância entre as duas localidades rondaria os 60 quilómetros, que tinham de ser percorridos por picada. A paisagem, no leste de Angola, caracterizava-se por imensas planícies, as chanas, cobertas de capim, onde em alguns locais, surgiam pequenas zonas de mata cerrada.

 

O principal perigo nas picadas eram as minas, mas também não podíamos descurar a hipótese de uma emboscada numa dessas zonas da mata. E entre o Luvuei e o Lutembo havia precisamente uma zona de mata cerrada, no interior da qual a Unita tinha um acampamento, o Catóio, sobejamente conhecido de todos o militares que passaram por aquela zona. O MPLA também andava por aquelas paragens.

 

Naquele dia, no início do mês de Junho de 1971, de que já não me recordo a data, coube-me comandar a pequena coluna que ia fazer o reabastecimento ao destacamento do Lutembo.

 

Eram cerca de uma dúzia de homens, que se faziam transportar em dois unimogs e uma berliet. Um unimog seguia na frente da coluna, a berliet no meio e o outro unimog na retaguarda. Eu ocupei o unimog da frente. Todos os militares estavam equipados com espingardas automáticas G3 e alguns também com granadas defensivas e ofensivas presas ao cinturão, junto às cartucheiras e aos cantis da água. Estávamos equipados, ainda, com uma bazuca e com um morteiro 60mm. Em cima da caixa da berliet, que servia para transportar os víveres para o reabastecimento, foi montada uma metralhadora MG42, num tripé, junto da qual seguia o apontador. A zona por onde íamos passar era altamente perigosa e era necessário tomar precauções.

 

As populações civis estavam acantonadas junto aos aquartelamentos militares e não podiam sair da sua zona, sem autorização. Qualquer pessoa que fosse encontrada na mata, fora do perímetro estabelecido pela tropa, era considerada um potencial inimigo.

 

A pequena coluna saiu a meio da manhã. Talvez devido à minha inexperiência, todo aquele aparato militar impressionou-me bastante. Para os restantes elementos do grupo, já com mais de um ano de experiência de guerra naquela zona, aquilo era uma situação normal. Só nessa altura me convenci definitivamente que estava envolvido numa guerra e que o perigo era iminente. Em qualquer ponto da picada podia estar colocada uma mina anti-carro ou em qualquer local do nosso percurso o inimigo podia ter montado uma emboscada à espera da nossa passagem.

 

 

 

 

Percorridos alguns quilómetros atingimos o rio Lumai, que era atravessado através de uma ponte (imagem acima), construída em madeira, que já tinha sido destruída várias vezes pelo inimigo e reconstruída pelas nossas tropas. Muitos elementos da CART 2731 já ali tinham ficado emboscados várias vezes nas noites anteriores à passagem dos MVL’s do Luso para Gago Coutinho e vice-versa, para evitar que o inimigo destruísse a ponte e impedisse a passagem do MVL.

 

Mais uns quilómetros à frente, avistámos, em cima de umas árvores secas no meio do capim, a pouca distância da picada, um bando de galinhas de mato. Parámos para não espantar a caça e tentámos abater algumas, mas sem êxito. É que abater uma galinha de mato a uma centena de metros de distância com uma G3 é tarefa quase impossível. Se não se acerta ao primeiro tiro o bando levanta voo e não há mais hipóteses.

 

Também não teremos perdido grande coisa, porque, segundo dizem (nunca provei), aquela carne é muito rija e de pouca qualidade. Serviu, no entanto, para aliviar um pouco a nossa pressão.

 

A viagem continuou até nos aproximarmos de um pequeno morro com uma zona de mata densa, no lado esquerdo da picada, local propício para uma emboscada. Foi, aliás, nesta zona que alguns tempos depois, em 15 de Novembro de 1973, 2 Grupos de Combate da 2042ª Companhia de Comandos cairam numa emboscada, tendo sofrido 5 mortos e 15 feridos.

 

Efectuámos nova paragem, a alguma distância da mata, e por precaução batemos a zona com rajadas de metralhadora, arma com grande cadência de tiro, que disparava cerca de 600 balas por minuto. Normalmente, quando isto acontecia, se o inimigo estava emboscado, havia tendência para responder ao nosso fogo, denunciando a sua localização, fazendo abortar a emboscada. Não houve resposta e continuamos a marcha.

 

Ao aproximarmo-nos de um local chamado Casa Branca, junto à picada que dava acesso ao Catóio, avistámos um negro à nossa frente, que seguia a pé na picada no mesmo sentido que o nosso. Aparentava ser pessoa de meia-idade, ia descalço, vestia apenas uns calções e não parecia estar armado. Os soldados reagiram de imediato gritando “Furriel é turra, mata-se antes que o gajo fuja”. O meu coração começou a bater mais forte e gritei energicamente: Ninguém dispara, não se abate um homem desarmado. Vou mandá-lo parar, vou buscá-lo e seguirá connosco para o Lutembo. Só faremos fogo se ele não obedecer e tentar fugir. Os soldados tentaram dissuadir-me da minha decisão, argumentando que tinham muita experiência e que aquele procedimento era perigoso, porque o fulano podia estar a servir de isco para nos conduzir a uma armadilha.

 

Mantive a decisão e mandei parar o unimog e a uma distância razoável do indivíduo ordenei-lhe que parasse com as mãos em cima da cabeça, no que fui prontamente obedecido. Com a espingarda G3 em posição de tiro de rajada fui até junto homem e perguntei-lhe o que fazia por ali, tendo-me respondido que era do Luvuei, donde tinha saído com autorização do Comandante da CART 2731 para ir ver os familiares ao Lutembo.

 

Não acreditei na história e disse-lhe que teria de seguir connosco para o Lutembo para esclarecer aquela situação. No unimog os soldados ainda o quiseram mimosear com algumas “carícias”, que não permiti. É que a acção psicológica era uma das melhores armas que tínhamos naquela guerra de guerrilha. O bom relacionamento com os nativos era meio caminho andado para diminuir os problemas com os turras. Não nos podíamos esquecer que a maioria dos turras que actuavam na nossa zona eram pais, irmãos, filhos e outros familiares e amigos desses nativos.

 

Chegados ao Lutembo, contactei, via rádio, o Comandante da CART 2731, que estava no Luvuei, que confirmou que no dia anterior tinha autorizado um nativo a ir visitar a família ao Lutembo. Pela descrição parecia coincidir com o indivíduo que capturámos. Assim, o homem lá foi à sua vida, provavelmente satisfeito por só ter feito metade da viagem a pé, embora o resto tenha sido uma boleia forçada.

 

Foi uma saída sem grandes peripécias, mas talvez por ser a primeira estas cenas ficaram para sempre gravadas na minha memória. Ainda hoje acho estranho que um indivíduo se deslocasse cerca de 60 quilómetros a pé pela mata sem outro objectivo que não fosse visitar os familiares, uma vez que para esse fim podia perfeitamente ter pedido boleia à nossa tropa que todas a semanas se deslocava ao Lutembo.

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publicado por Franquelino Santos às 13:31
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