Sábado, 10 de Dezembro de 2011

Aldeia Capitão

 

A Aldeia Capitão, primeiro local onde ficámos instalados na zona de Santa Cruz, construída pela CART 2731, foi baptizada com este nome para homenagear o Comandante da Companhia, que tinha a patente de capitão.

 

Era um acampamento localizado em pleno coração da mata, a cerca de 20 quilómetros de Santa Cruz de Macocola, e serviu de base, durante cerca de quatro meses, à CART 2731 e a uma Companhia de Engenharia, envolvidas na construção de uma picada entre Santa Cruz de Macocola e a picada que ligava Quimbele a Quicua.

 

 

O acampamento foi construído com a preciosa ajuda dessa Companhia de Engenharia, que efectuou os trabalhos de terraplanagem. Ali não nos faltava quase nada. Tínhamos, entre outros "luxos", campo de futebol e bar.

 

O bar foi construído com troncos, folhas de árvores e chapas de zinco. Ali nem sequer faltava a poncha (especialidade madeirense, que é feita com aguardente de cana e mel, entre outros ingredientes).

 

Dormíamos em tendas de campanha e cada um construiu a sua cama. Quatro barrotes espetados no chão, umas ripas de madeira pregadas aos barrotes, para servir de estrado, um colchão de espuma e estava construída uma cama de luxo. Os nossos haveres tinham de ficar em cima das camas ou pendurados na estrutura da tenda. Estávamos no período das chuvas e quando chovia o chão da tenda ficava completamente inundado. As trovoadas, em quatro frentes, eram impressionantes. À noite, com a claridade dos relâmpagos, conseguia-se ler um livro.

 

 

O refeitório foi construído com troncos de árvores e era coberto com chapas de zinco. As instalações sanitárias eram a mata. Para os banhos eram utilizados meia dúzia de bidões de 200 litros, com um chuveiro no fundo, ligados entre si (tipo vasos comunicantes), que eram colocados em cima de palanques, com cerca de dois metros de altura.

 

Num raio de vinte quilómetros não havia população. Estivemos completamente isolados durante cerca de dois meses. A picada estava a ser construída num terreno muito irregular, com muito declives. Estávamos na época da chuvas e a maioria das viaturas não conseguia ultrapassar as íngremes subidas. Apenas os unimogs (mais conhecidos por burros de mato) conseguiam vencer aqueles obstáculos.

 

 

Durante esse tempo chegámos a ser reabastecidos por helicóptero. Na maior parte dos dias a ementa era esparguete com frango ao almoço e frango com esparguete ao jantar, para variar um pouco. Tínhamos a vantagem de estarmos numa zona onde a fruta abundava. Mangas, bananas, papaias, mamões, ananases, entre outras, eram espécies abundantes, umas na mata circundante e outras nas fazendas abandonadas, que existiam próximo do acampamento.

 

Completamente isolados do resto do mundo, os nossos dias eram muito monótonos e repetitivos. Um grupo de combate deslocava-se diariamente para frente de trabalhos na picada, para dar protecção ao grupo da Companhia de Engenharia. Outro estava encarregado de ir à lenha e à água, para o abastecimento do acampamento. Uma ou duas secções tinham a seu cargo a protecção da ponte que existia próximo de Santa Cruz de Macocola, entre esta vila e a fazenda Lopes. O restante pessoal tinha a seu cargo a segurança do acampamento.

 

 

Os domingos eram dias muito especiais. Era dia de futebol. Foi organizado um campeonato entre os grupos da nossa Companhia. Os jogos eram realizados ao domingo, com direito a relato, através do rádio AN/GRC-9 (1), para o pessoal que estava destacado no mato (a dar protecção à ponte ou aos elementos da Companhia de Engenharia envolvidos nos trabalhos de construção da picada). Agora, decorridos quase 40 anos, posso afirmar, com conhecimento de causa, que nesse tempo a influência do “apito dourado” já era muito grande naquelas paragens.

 

 

 

Assim vivemos cerca de quatro meses, isolados do mundo, em que os únicos seres vivos que víamos, para além da grande quantidade de animais selvagens que existiam naquelas matas, eram os nossos camaradas de infortúnio.

 

Finalmente, em 25 de Dezembro de 1971 fomos substituídos por uma outra Companhia e rumámos até à Aldeia Natal. Para mal dos nossos pecados, mudámos de mal para pior.

 

(1) O AN/GRC-9, emissor receptor, era o melhor rádio que existia no exército, embora tivesse o inconveniente de ter de ser transportado numa viatura, por causa do seu peso e fonte de alimentação (uma bateria). Com este rádio era possível captar em Angola, a mais de 10.000 quilómetros de distância, as emissões da antiga Emissora Nacional, difundidas a partir de Lisboa.

publicado por Franquelino Santos às 13:39
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