Sábado, 14 de Janeiro de 2012

A minha primeira noite na mata

 

Durante a nossa comissão de serviço em Angola, eu e os meus camaradas da CART 2731, pernoitámos várias noites na mata, ao relento, sem o mínimo de condições, expostos aos mais variados perigos e muitas vezes à chuva.

 

Já decorreram mais de 37 anos e da grande maioria dessas noites já só retenho vagas recordações. Mas da primeira, embora não tenha sido a mais complicada, é a de que ainda hoje melhor me recordo, talvez por ter sido uma experiência diferente, a que eu não estava habituado.

 

Em finais de 1970, surgiu uma informação de que a FNLA teria conseguido infiltrar importantes forças de guerrilha na região de Santa Cruz, calculando-se que essa força não andaria longe dos 600 guerrilheiros. Embora os relatórios operacionais do Batalhão de Caçadores 2889, com responsabilidade da quadrícula da região, não confirmassem a existência de tantos guerrilheiros, é certo que a guerrilha desencadeou nessa altura várias operações violentas em Cabaca, Quimbele, Macocola e Massau.

 

Os altos comandos militares resolveram então lançar a Operação Golpe de Flanco, na região de Santa Cruz de Macocola, que decorreu entre 3/1/1971 e 17/2/1971, com o objectivo de aprisionar destruir ou expulsar os eventuais grupos IN que se mantivessem nessa área.

 

No seguimento dessa operação, era necessário continuar a patrulhar com regularidade as matas que circundavam Santa Cruz, para impedir que os guerrilheiros voltassem a realojar-se na zona. Os patrulhamentos ficaram a cargo das forças militares que nessa altura actuavam na área de Santa Cruz, sendo a CART 2731 uma delas.

 

Em Outubro de 1971, em data que já não consigo recordar, o meu grupo de combate, comandado pelo alferes Costa, foi incumbido de efectuar um desses patrulhamentos. A ordem foi-nos transmitida na noite anterior à operação, pelo capitão Pimenta, Comandante da CART 2731.

 

Normalmente, só nos era dado conhecimento das operações poucas horas antes da sua realização, para que o sigilo fosse mantido. Desta vez, porém, não havia qualquer perigo de fuga de informação, porque estávamos instalados e isolados na mata, na Aldeia Capitão, a cerca de 20 quilómetros de distância de Santa Cruz, não havendo, por isso, qualquer possibilidade de contacto com a população. Mas as normas foram cumpridas da mesma forma.

 

Recebida a ordem, foi necessário efectuar os preparativos para a operação, que iria ter a duração de 2 dias. O grupo de combate era formado por cerca de 25 homens. A cada militar foram distribuídos 5 carregadores, com 20 munições cada um (4 carregadores eram transportados presos ao cinturão e o outro era introduzido na espingarda G3). Ao comandante do grupo (o alferes) e aos comandantes das secções (os furriéis) foram distribuídas também granadas defensivas e ofensivas, que eram igualmente transportadas presas ao cinturão. Para além das munições, foram fornecidas 2 rações de combate a cada um dos elementos do grupo. Tínhamos de transportar também água (normalmente 2 cantis por elemento), roupa interior e agasalhos para dormir ao relento.

 

Nestas operações a nossa carga (espingarda, munições, rações de combate, água e utensílios) facilmente ultrapassava os 15 quilos. Havia alguns ainda mais sacrificados. Era o caso do enfermeiro e do radiotelegrafista, que para além da carga normal, ainda tinham de transportar a bolsa de primeiros socorros e o rádio, respectivamente. A ração de combate continha os alimentos de um dia para as três refeições principais de um combatente: o pequeno-almoço, o almoço, o jantar. Embora o conteúdo não fosse igual em todas as embalagens, era composta basicamente pelos seguintes produtos: lata de leite achocolatado, lata de salsichas, fruta cristalizada, sardinhas em conserva, chocolate, pequenas embalagens de compotas, marmelada, uma lata de carne - por exemplo jardineira - uma lata de feijoada, sumo de laranja, sumo de ananás e bolachas sem sal.

 

Ao abrirmos a embalagem de uma ração de combate nunca sabíamos o que íamos encontrar no seu interior, pelo que, após a descoberta, procedíamos muitas vezes à troca de produtos entre nós, de acordo com os gostos de cada um. Apesar da comida das rações de combate ser intragável, o nosso problema principal era a água. Embora as matas que circundavam Santa Cruz fossem atravessadas por vários cursos de água, não era fácil localizá-los, por várias razões: a mata era muita densa e de difícil penetração e não nos podíamos desviar dos trilhos conhecidos, porque corríamos o risco de nos perdermos. Por isso, era necessário racionar esse bem precioso, porque, por vezes, andávamos várias horas, sob um sol abrasador, sem o encontrarmos e a capacidade dos cantis era muito reduzida.

 

Na madrugada do dia seguinte, o grupo estava preparado para a saída e, por volta das 6 da manhã, fomos transportados em unimogs até à fazenda Lopes, que se situava a cerca de 5 quilómetros de Santa Cruz. Ali, como havia uma grande plantação de abacaxis, aproveitamos para fazer o nosso pequeno-almoço com fruta fresca. É que a partir dali a nossa alimentação até ao fim do patrulhamento seria só à base das rações de combate.

 

Após o pequeno-almoço internamo-nos na mata. O trilho pelo qual seguimos, guiados por um nativo, era muito estreito, mas a progressão ia-se fazendo sem problemas de maior, para além do calor escaldante, amenizado pela sombra das árvores de grande porte, cujas copas se entrelaçavam e onde o sol quase não consegui penetrar. Caminhávamos em silêncio absoluto. À nossa volta, apenas se ouvia o chilrear dos pássaros e os guinchos de alguns macacos que saltavam entre as árvores à nossa passagem.

 

O primeiro obstáculo surgiu após cerca de 3 horas de progressão. Pela frente tínhamos o rio Gibango que era necessário ultrapassar. Acompanhámos a margem direita do rio durante alguns minutos até encontrar uma zona onde se pudesse passar a vau para o outro lado. O rio corria calmamente, a água era límpida e transparente e não foi difícil encontrar um local seguro para ultrapassar aquele obstáculo. Ainda assim houve necessidade de tomar algumas precauções, principalmente para não deixar molhar a arma e as munições, porque a profundidade do rio nessa zona era de cerca de metro e meio.

 

Com a água acima da cintura, passámos para a outra margem com relativa facilidade, mas não podemos evitar que as nossas fardas tivessem ficado completamente encharcadas e as botas cheias de água.

 

Ultrapassado aquele obstáculo, encontramos, um pouco mais à frente, um local propício para efectuar uma pequena paragem. Depois de montada a segurança, almoçamos, obviamente com recurso à ração de combate, e aproveitámos para recuperar forças e mudar de meias, porque caminhar com as meias molhadas era muito incómodo e magoava os pés. Quanto às fardas não havia grande problema, porque em pouco tempo secariam mesmo no nosso corpo, devido ao grande calor que se fazia sentir.

 

Após aquela curta paragem, depois de termos enterrado os restos do almoço (as latas de conserva vazias e outro lixo) para que não denunciar a nossa passagem por aquele local, prosseguimos a marcha.

 

Por volta das cinco horas da tarde, começámos a procurar um seguro local para pernoitar. Em África, naquela época do ano, anoitece por volta das 7 horas da tarde, a noite cai muito rapidamente e no interior da selva não era o sítio ideal para dormir.

 

Encontramos uma pequena clareira (local pouco arborizado) no cimo de um morro, que considerámos adequado, montámos segurança, jantámos e preparámo-nos para dormir umas horas.

 

Na mata, dormíamos vestidos e calçados, deitados no chão, tapados apenas pelo poncho, que era uma espécie de capa impermeável, que nos protegia do frio e da chuva. Quem achasse que eram necessários mais agasalhos, como por exemplo cobertores, tinha que os transportar na mochila que levávamos às costas, o que não era muito agradável, tendo em conta a carga (espingarda, munições, comida e água) que já éramos obrigados a suportar.

 

No leste de Angola, onde estivemos até Junho de 1971, as noites eram muito frias, atingindo, por vezes, temperaturas negativas. Aqui, no norte, não tínhamos esse problema, as noites até eram bastante quentes. O único senão é que estávamos na época das chuvas e quase todos os dias chovia.

 

Foi o que aconteceu naquela noite, em que choveu torrencialmente e, como não bastasse, caiu um trovoada medonha. O ribombar dos trovões era impressionante, viam-se faíscas no céu de todos os lados, quase parecia autêntico fogo de artifício. Foi a primeira vez que assisti a um espectáculo daqueles, que tinha tanto de belo como de aterrador.

 

Felizmente, que o poncho era muito eficaz contra a chuva, bastava que nos abrigássemos convenientemente e não havia pinga de água que nos atingisse. Naquelas condições não houve condições para dormir e a noite foi passada praticamente em claro.

 

Por volta das 7 horas da manhã, após termos tomado o pequeno-almoço, ainda não totalmente recuperados do esforço do dia anterior, retomámos a nossa acção de patrulhamento.

 

Após algumas horas de caminhada, sem outros problemas que não fossem os da dificuldade de progressão, encontramos uma zona de mata limpa, em que os arbustos, as lianas e as árvores de pequeno porte aparentavam ter sido cortados recentemente. Encontrámos, ainda, cubatas abandonadas e meio destruídas. Havia sinais de lume, indícios de que teria estado instalado ali, até há pouco tempo, um acampamento inimigo.

 

Nas proximidades eram visíveis pequenas áreas totalmente ardidas, provavelmente efeitos do último bombardeamento que a nossa Força Aérea efectuou na zona e que teria obrigado os guerrilheiros a retirarem para outro local. Embora os acampamentos inimigos não fossem visíveis do ar, devido à densidade da mata, uma vez que as copas das árvores de grande porte se entrelaçavam, não deixando ver nada do que passava a nível do solo, era hábito a Força Aérea bombardear as zonas consideradas mais propícias para a instalação de acampamentos inimigos e esta era uma delas.

 

Depois de termos inspeccionado o local minuciosamente, não se tendo encontrado outros vestígios, prosseguimos no trilho que nos conduziu, cerca de duzentos metros mais à frente, a uma clareira (zona plana desmatada), com uma área considerável, onde havia algumas árvores de fruto (mangueiras, bananeiras, papaieiras), restos de plantações de mandioca, jindungueiros (arbusto que produz o jindungo, a que nós chamamos em Portugal piripiri), etc. Era um pequena fazenda abandonada.

 

Ao fundo da clareira, na orla da mata, via-se uma casa em ruínas, construída em tijolo e cimento, que, provavelmente, teria pertencido a um antigo colono europeu, antes do eclodir da guerra. Os nativos não tinham acesso àquele tipo de habitação. Viviam em palhotas, em que as paredes eram construídas com uma mistura de capim e de barro amassados e o telhado coberto por capim. A casa estava completamente em ruínas. Não havia portas nem janelas, nem sequer tinha telhado. Restava-lhe apenas parte das paredes, pintadas de branco, com centenas de furos provocados por balas, sinal evidente de que tinha sido alvo de um ataque muito violento.

 

Não sei qual teria sido a sorte do seu proprietário, uma vez que, aparentemente, não tinha possibilidade de resistir por muito tempo ao ataque ou de fugir, porque a casa situava-se em pleno coração da mata. Embora do local à vila de Santa Cruz não distassem mais de dez quilómetros em linha recta, pelo meio estava a imensidão da mata, um obstáculo quase intransponível para quem pretendesse fugir. No interior daquelas ruínas apenas encontramos destroços, cápsulas de balas e nada mais.

 

Tratando-se de uma zona potencialmente muito perigosa, redobrámos as nossas precauções e prosseguimos em fila indiana junto à orla da mata, rumo a Santa Cruz. O sol abrasava e o silêncio era absoluto. Seguíamos com as espingardas apontadas para a mata, embora, devido à sua densidade, a visão fosse praticamente nula.

 

De repente, ouviu-se um barulho, como o de alguém que tentava fugir apressadamente entre o emaranhado da mata. Como que impulsionados por uma força invisível, lançamo-nos imediatamente para o chão e deitados, de armas apontadas para a mata, prontas a disparar, aguardámos o evoluir da situação para reagir.

 

Passámos poucos mas longos minutos imóveis nessa posição, numa enervante espera, mas, felizmente, nada aconteceu. Provavelmente o ruído terá sido provocado por alguma gazela ou outro animal qualquer que pastava na orla da mata e ao pressentir a nossa aproximação fugiu, procurando refúgio no interior da selva. Desta vez foi apenas um susto, mas na mata todas as precauções eram poucas.

 

Passado o susto, retomamos a marcha e algumas centenas de metros mais à frente internámo-nos novamente na mata, seguindo um trilho que nos havia de conduzir a Santa Cruz de Macocola, onde chegámos por volta das 4 horas da tarde.

 

A nossa operação estava terminada, desta vez sem problemas. Ali, aguardavam-nos unimogs da CART 2731, que nos transportaram até ao nosso acampamento, na Aldeia Capitão.

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publicado por Franquelino Santos às 16:11
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