Sábado, 4 de Fevereiro de 2012

O reasbastecimento

 

Normalmente, a maioria das unidades militares instaladas em zonas operacionais eram reabastecidas, com víveres, combustíveis e material de aquartelamento, pelos MVL's (Movimentos de viaturas Logísticas). 

 

A aldeia Natal era uma das excepções. Acampámos ali temporariamente durante um período em que estávamos a dar proteção a uma companhia de Engenharia que fazia a manutenção da picada entre Quicua e Sanza Pombo, e aquele local não estava na rota de nenhum MVL. Por isso erámos nós que tínhamos de tratar do nosso próprio reabastecimento. Assim, quando necessário, um dos nossos grupos de combate deslocava-se aos Serviços de Intendência, em Sanza Pombo, onde nos reabastecíamos.

 

As deslocações eram perigosas, porque aquela zona era propícia a emboscadas. Apesar disso, havia sempre voluntários para as idas a Sanza Pombo, porque valia a pena correr o risco, só para sair, durante algumas horas, da monotonia que era a nossa vida na Aldeia Natal.

 

Participei, apenas, num desses reabastecimentos, mas recordo para sempre essa experiência. Já não me lembro da distância da Aldeia Natal a Sanza Pombo, mas não seriam mais de trinta quilómetros, que demoraram várias horas a percorrer. O estado da picada, com buracos enormes, era lastimável, obrigando a muitas paragens. Com a ajuda ds unimogs (burros de mato) lá iamos conseguindo desatolar as berliets e ultapassar as dificuldades que se nos iam deparando.

 

Já tinha ouvido falar nos famosos morros de salalé, mas foi nesta deslocação a Sanza Pombo que os vi pela primeira vez.

 

 

Construídos em argila por formigas com o mesmo nome, são autênticas obras de arte, que chegam a atingir uma altura superior a dois metros. No interior contêem galerias com largas centenas de metros por onde circulam as formigas. 

 

O morro de salalé, com uma tonalidade vermelha característica de toda aquela zona, destaca-se perfeitamente do ambiente onde se encontra, mesmo à distância, sobressaindo como um elemento contrastante com a verdura da mata envolvente.

 

O morro é muito consistente e praticamente invulnerável às balas das nossas espingardas G3. Aliando este facto ao destas formigas serem inofensivas, o IN (inimigo) chegou a montar emboscadas às NT (nossas tropas) utilizando estes morros para se protegerm dos nossos disparos.

 

Por volta das 12 horas, chegámos finalmente a Sanza Pombo. Aproveitámos para almoçar naquela vila, no Clube Recreativo local. O petisco nestas ocasiões era quase sempre o mesmo, frango no churrasco com gindungo, acompanhado com batatas fritas e regado, quando havia, com vinho verde Casal Garcia, o que era um luxo, naquelas paragens. Naquele dia, mais uma vez, fomos fiéis à tradição. Comemos bem e bebemos ainda melhor.

 

 

Ainda me recordo da aposta feita com um dos alferes no final do almoço antes de nos levantarmos da mesa: punhamos uma garrafa de vinho vazia a rolar pelo chão da sala e o alferes, que aceitou a aposta, se fosse capaz de dar uma cambalhota em frente e apagar a garrafa ainda em andamento ganharia uma garrafa de vinho Casal Garcia cheia. E foi ver o alferes às cambalhotas na sala até que o dono veio pedir para terminar com a brincadeira, porque dava mau aspecto, uma vez que estava a ser presenciada por muitos civis que ali estavam a almoçar.

 

Na verdade, o cacimbo provocava reacções incontroláveis e nós, quase no final da comissão, dormimos muitas noites ao relento e estávamos completamente cacimbados.

 

Depois de bem almoçados, melhor bebidos e as viaturas carregadas com os víveres regressámos à Aldeia Natal. Da viagem de regresso já nada me recordo.

publicado por Franquelino Santos às 12:11
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