Quinta-feira, 28 de Maio de 2015

A ponte do rio Lumai

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Quinzenalmente, às terças-feiras, o pessoal da CART 2731 fazia escolta ao MVL (Movimento de viaturas logístico), que saia do Luso com destino a Gago Coutinho. Eram cerca de quatrocentos longos quilómetros de picada, em areia, que demoravam dois dias a percorrer e em que quase sempre eram acionadas minas anticarro colocadas, pensa-se, pelo MPLA (Movimento para a libertação de Angola).

Digo pensa-se porque depois de a guerra já ter terminado soubemos que, naquela altura, havia entre o Exército Português e a UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola) um pacto mútuo de não agressão.

Na zona de ação da CART 2731, existia uma ponte de madeira sobre o rio Lumai, entre o Luvuei e o Lutembo, que tinha uma importância vital para a nossa estratégia, porque o rio tinha grande caudal e sem ela não era possível atravessá-lo.

Aquela ponte foi algumas vezes armadilhada pelos guerrilheiros, o que para além do perigo que representava para a segurança das pessoas, retardava o MVL várias horas gastas na sua reconstrução. Por isso, nas noites que antecediam a passagem do MVL era destacado um grupo da CART 2731 para dar proteção à referida ponte.

Normalmente depois do jantar e até por volta da meia-noite, distraíamo-nos a jogar às cartas e a beber uns whiskys. O jogo preferido era o King em que se organizavam campeonatos e o vencedor era contemplado com uma garrafa de whisky.

Muitas vezes, nas noites que antecediam o MVL e que havia pessoal da CART 2731 a fazer proteção à ponte, o Comandante da Companhia, depois de acabar o jogo das cartas, por volta da meia-noite, subia para o jipe e dizia ”vou fazer uma visita e levantar a moral aos homens que estão a guardar a ponte”.

Quando tal acontecia tentámos sempre acompanhá-lo ou dissuadi-lo da aventura, alertando-o para a perigosidade, uma vez que, para além de poder cair numa emboscada, tinha de percorrer cerca de 20 quilómetros de picada, onde com frequência o inimigo colocava minas, especialmente nos dias que antecediam a passagem do MVL. Nunca o conseguimos dissuadir, nem nunca quis que o acompanhássemos. Fez isto várias vezes, deixava uma grade de cervejas para o pessoal que estava no mato e voltava trazendo, quase sempre, uma gazela, que caçava pelo caminho.

Terá tido sorte? Talvez, mas penso que não terá sido só isso. A forma como a nossa tropa tratava a população indígena, no meio da qual se abrigavam, certamente, alguns guerrilheiros, terá sido o motivo principal porque nunca teve problemas.

publicado por Franquelino Santos às 18:30
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