Sábado, 17 de Dezembro de 2011

A gazela

 

Depois de dois meses de isolamento na Aldeia Capitão, em pleno coração da mata, sentíamos necessidade de sair daquele ambiente. Por isso, em data que já não me recordo, solicitámos autorização ao Comandante da Companhia para ir jantar a Santa Cruz de Macocola (não posso precisar o número exacto, mas seríamos cerca de meia dúzia de furriéis). A autorização foi-nos concedida, com a condição de ser o furriel mecânico a conduzir a viatura e sermos nós próprios a zelar pela nossa segurança. Não haveria escolta.

 

As condições foram aceites e, ao fim de uma tarde, lá nos dirigimos a Santa Cruz de Macocola, num unimog que, com algumas dificuldades, conseguiu ultrapassar as difíceis subidas que iam surgindo. É que estávamos na época das chuvas e a picada era um autêntico lamaçal.

 

 

Em Santa Cruz de Macocola não foi difícil chegar a consenso para a escolha do restaurante. É que só havia um local onde serviam refeições. Era um estabelecimento comercial, propriedade de um madeireiro, conhecido pela alcunha de Arrobas, devido ao seu peso, que rondaria os 150 quilos. O estabelecimento tinha grande polivalência. Servia de casa de pasto, mercearia, drogaria, loja de roupas, etc. Mas, verdade seja dita, a ementa era variada e bem confeccionada.

 

Apesar do tempo já decorrido, ainda me recordo que o nosso jantar foi frango no churrasco, bem condimentado com gindungo, acompanhado com vinho verde, Casal Garcia, o que era um luxo naquelas paragens.

 

Depois de um óptimo jantar, muito bem regado, empreendemos a viagem de regresso à Aldeia Capitão, por volta da meia-noite.

 

Quando estávamos quase a chegar ao nosso acampamento (aí a um ou dois quilómetros de distância) uma gazela ficou encandeada com os faróis do unimog e parou no meio da picada, cerca de 50 metros à nossa frente.

 

 

Parámos a viatura, saltámos para o chão, afinámos a pontaria e começámos a disparar para o bicho, convictos que na manhã seguinte íamos ter pequeno-almoço melhorado.

 

Disparámos até acabarem as munições do carregador da G3 mas, talvez por influência do Casal Garcia, ninguém acertou na gazela que, encandeada e assustada com aquele tiroteio, começou a correr em linha recta, passando pelo meio de nós, só não atingindo ninguém com uma cornada por mero acaso.

 

No meio daquela confusão nem nos lembrámos de informar via rádio o nosso acampamento que não estávamos a ser atacados, estávamos apenas a tentar matar uma gazela.

 

O Comandante da Companhia, ao ouvir os tiros, deduziu que estávamos a ser alvo de um ataque e mandou avançar imediatamente, em nosso auxílio, um grupo de combate para o local, que ele próprio acompanhou.

 

Quando ali chegou, ainda nos encontrou ao lado da viatura, a tecer considerações sobre a nossa nabice, por termos sido tantos a disparar e não termos acertado no bicho.

 

Resultado: uma forte reprimenda do Comandante da Companhia e acabaram-se os jantares em Santa Cruz.

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publicado por Franquelino Santos às 18:30
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