Sábado, 27 de Agosto de 2011

A guerra contada pelos "velhinhos"

Os maçaricos (como eram conhecidos os militares acabados de chegar ao ultramar) eram facilmente reconhecidos pelos “velhinhos” (militares que já tinham muitos meses de guerra). As suas fardas novas, com as divisas dos sargentos e os galões dos oficiais a brilharem eram como que um bilhete de identidade e contrastavam com o fardamento dos velhinhos, gasto pelo sol e quase sem cor.

 

Quando um maçarico se apresentava no Depósito Geral de Adidos, Luanda, como aconteceu comigo, surgia sempre algum velhinho que se prontificava para ajudar, transmitir a sua experiência de guerra e dar alguns conselhos. Também era costume dirigirem-se-nos dizendo: "é pá o que é que levas aí? Levanta lá o braço?" e nós, ingenuamente levantávamos. Havia gargalhada e "ena tantos peixes voadores".

 

No meu caso pessoal, a primeira ajuda que me deram, que eu tinha dispensado se tivesse podido, foi colocarem-me de serviço mal me apresentei no quartel. Quanto à experiência de guerra (deles) era para arrasar psicologicamente qualquer pessoa.

 

Quando lhes disse que eu ia para o Luvuei, no leste de Angola, disseram-me: "tiveste muita sorte, a última companhia que lá esteve só sofreu pouco mais de uma dúzia de mortes. Vais encontrar muitas minas nas picadas e quase todos os dias sofrer emboscadas, mas sempre vão escapando alguns e com um pouco de sorte pode ser que não te aconteça nada. Mas, não desanimes que por essa Angola fora há muito pior".

 

Para quem acabava de chegar à guerra não havia dúvida que aquelas informações eram muito animadoras. Se os velhinhos consideravam ter muita sorte ir cair naquele cenário aterrador o que considerariam ter tido muito azar? 

 

Depois de ter chegado ao Luvuei conclui rapidamente que o cenário que tinha sido descrito pelos velhinhos não correspondia nem de longe nem de perto à realidade. É verdade que o leste de Angola não era um paraíso, havia muitas minas na picada, algumas emboscadas e até ataques a quartéis, donde infelizmente resultavam alguns mortos e feridos, mas tudo o que me disseram em Luanda foi propositadamente exagerado.

 

Apesar de ser hábito dos velhinhos tentar assustar os maçaricos, no meu caso pessoal, até achei que aqueles exageros não foram prejudiciais, porque obrigaram-me a tomar todas as precauções quando ia para a picada ou para a mata. E quantas vidas se perderam naquela guerra estúpida por incúria ou facilitismo?

publicado por Franquelino Santos às 12:03
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Sábado, 20 de Agosto de 2011

Chegada a Luanda

A maioria dos militares mobilizados para a guerra do ultramar era integrada em batalhões ou companhias. Assim, quando desembarcavam, tinham apoio logístico, nomeadamente meio de transporte à sua espera para os conduzir ao destino. Tal não sucedia com os militares mobilizados em rendição individual, como foi o meu caso.

 

Desembarquei em Luanda, em 26 de Abril de 1971, por volta das 12 horas. Tinha apenas a indicação da guia de marcha, que me tinha sido entregue no Depósito Geral de Adidos, em Lisboa, de que devia apresentar-me na CART 2731 (nem sequer indicava o local).

 

 Como nos ensinaram na tropa, tinha de me desenrascar. Valeu-me, na circunstância, um camarada de viagem, um 1º Sargento com muita experiência nestas andanças, por força das comissões que já tinha efectuado no ultramar. Sugeriu que me apresentasse no Depósito Geral de Adidos, em Luanda, onde indicariam a forma como chegar à minha Companhia, a CART 2731.

 

No cais estavam vários camiões para transportar os militares que acabavam de chegar e que se destinavam ao Depósito Geral de Adidos, em Luanda. Apanhei uma dessas viaturas e, poucos minutos depois das 13 horas chegava ao destino. Os militares que tinham como destino o Grafanil seguiam de comboio.

 

Logo que cheguei ao quartel, apresentei-me ao sargento-dia. Disse-me que eu estava atrasado, porque já devia ter entrado de serviço às 13 horas. Tentei ripostar, dizendo que acabava de chegar da Metrópole, pelo que não podia constar da escala de serviço feita no dia anterior. O militar retorquiu dizendo-me que já sabiam que o Vera Cruz ia chegar no dia 26 de Abril e que por isso me colocaram na escala.

 

Contrariado, entrei imediatamente de sargento-dia. Fiquei a saber, mais tarde, que este estratagema era utilizado por alguns velhinhos (militares já com algum tempo de comissão) para se baldarem ao serviço, tramando os maçaricos (alcunha pela qual eram conhecidos os militares acabadinhos de chegar à guerra). Mais um enganado.

publicado por Franquelino Santos às 11:26
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Sábado, 13 de Agosto de 2011

Vera Cruz - A viagem

Por volta das 12 horas de sábado, dia 17 de Abril de 1971, o Vera Cruz zarpava do cais de Alcântara, em Lisboa, com destino a Luanda, apitando estrondosamente. A bordo seguiam cerca de 2.000 militares com destino à guerra em Angola. A lotação do navio era de 1.242 passageiros, mas quando transportava tropas a lotação era largamente excedida.

 

No cais, milhares de pessoas, que tinham ido despedir-se dos seus entes queridos, acenavam com lenços brancos, choravam, gritavam, desmaiavam, criando um cenário dantesco e arrepiante, só imaginável por quem passou por uma situação daquelas.

 

Viajei instalado no camarote 212, conjuntamente com 3 camaradas furriéis que, tal como eu, tinham sido mobilizados em rendição individual, embora se destinassem a outras companhias que não a minha. Ainda me recordo do nome de dois deles (o Cerqueira e o Fortuna). Depois desta viagem, só voltei a vê-los em 30 de Maio de 1973, no regresso à Metrópole, desta vez a bordo de um avião dos TAM (Transportes Aéreos Militares).  

 

  

Os passatempos a bordo eram poucos, pelo que os dias eram muito monótonos. Tiravam-se algumas fotografias, dávamos uns mergulhos na piscina, bebíamos umas cervejas e pouco mais. Muitas horas da viagem foram passadas na proa do navio a contemplar a imensidão do mar. À nossa volta apenas se avistava água. De quando em vez, viam-se ao lado do navio alguns golfinhos e peixes-voadores. Também vi, algumas vezes, emergir um submarino a algumas centenas de metros de distância. Segundo constava na altura, todos os navios que transportavam tropa para a guerra do ultramar eram escoltados por um submarino da Armada Portuguesa

 

A passagem pela linha do equador foi assinalada com uma festa a bordo, em que participaram vários militares com dotes artísticos. Havia acordeonistas, guitarristas, fadistas, enfim artistas para quase todos os gostos.

 

Ao fim de 9 dias de viagem, já com alguma ansiedade, uma vez que íamos ao encontro do desconhecido, começamos a avistar ao longe, por volta das 10 horas da manhã do dia 26 de Abril de 1971, uma terra avermelhada. Houve excitação geral. Era Luanda que despontava no horizonte. Os nossos corações começaram a palpitar mais forte. Estávamos a aproximar-nos rapidamente do palco da guerra.

 

Por volta das 12 horas desse dia, o navio Vera Cruz aportava finalmente ao cais de Luanda.

publicado por Franquelino Santos às 17:26
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Sábado, 6 de Agosto de 2011

A despedida

17 de Abril de 1971. Data do meu embarque para Angola, a bordo do navio Vera Cruz.

 

O navio estava atracado no cais de Alcântara. As famílias dos militares apinhavam-se nas varandas da gare marítima, com lenços brancos a acenar. Ouviam-se choros e gritos de mães, pais, esposas, filhos e filhas, namoradas e outros amigos. Era um cenário dantesco. Para alguns, infelizmente, foi o último adeus. Para a maioria, foi apenas um adeus, até ao meu regresso.

 

Antes do embarque, as companhias desfilavam perante um alto representante militar, com as senhoras do Movimento Nacional Feminino e da Cruz Vermelha Portuguesa a distribuírem lembranças e folhetos com informação da província de Angola. Eu não participei no desfile, porque fui mobilizado em rendição individual. Apenas tinha de embarcar no navio à hora marcada.

 

Alguns dos meus familiares acompanharam-me até ao cais para a despedida. Assisti a estas cenas, enquanto pude, junto dos meus. A hora do embarque aproximava-se a passos largos e eu não sentia coragem para me despedir. Foi então que me lembrei de lhes dizer que ia colocar as malas no navio e voltava depois para a despedida. Foi uma mentira piedosa, eu sabia que não ia voltar e só eu sei o que sofri nesse momento. E lá parti, sempre a olhar para trás, fazendo-lhes adeus e pensando se seria a última vez que os via.

 

Foi meu propósito, também, poupar-lhes o choque da despedida. Hoje, julgo que fui muito egoísta e que o choque provocado pela minha decisão de não me despedir foi ainda maior. Quanta dor e sofrimento lhes terei causado naquele dia? Ainda hoje tenho remorsos.

 

publicado por Franquelino Santos às 17:22
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