Sábado, 26 de Novembro de 2011

Madrinhas de guerra

 

Quis o acaso que o meu primeiro emprego estivesse relacionado com a guerra do ultramar. Em Junho de 1968, tinha eu pouco mais de 18 anos, arranjei emprego em Lisboa, como escriturário na Agência Militar (actualmente Centro Financeiro do Exército), onde trabalhei até ir para a tropa.

 

Aquele organismo, que pertencia ao Ministério do Exército, era responsável, entre outras tarefas, pelo processamento e pagamento de subvenções aos familiares dos militares que estavam a prestar serviço no ultramar. O seu quadro de pessoal, com cerca de 500 empregados, era constituído maioritariamente por civis, dos quais cerca de noventa por cento eram mulheres.

 

Durante os cerca de 2 anos em que ali trabalhei criei muitas amizades, nomeadamente com uma colega cujo nome não interessa, mas a quem passarei a chamar Milena. Era daquelas pessoas com quem, sem motivo especial e sem sabermos bem porquê, simpatizava-mos à primeira vista.

 

Em Junho de 1971, chegou a minha vez de ir para a tropa. Seguiu-se a mobilização para Angola e nunca mais tive notícias da Milena, embora lhe tenha escrito muitas cartas e lido as suas respostas. Parece um paradoxo, mas não é. Vou contar-vos a estória.

 

Na guerra do ultramar, quando estávamos isolados na mata, normalmente só recebíamos correspondência uma vez por semana. No dia marcado, quando se ouvia ao longe o barulho do motor do avião que trazia o correio, corríamos para a pista para montar a segurança à aeronave e todo o pessoal vivia momentos de grande expectativa e nervosismo.

 

 

Só quem ali viveu esses tempos pode testemunhar o alvoroço e alegria desse momento. Chegada a hora da distribuição do correio, todos aguardavam ansiosamente. Muitas vezes, o primeiro desalento acontecia quase de imediato quando o cabo escriturário surgia com uma pequena quantidade de aerogramas para distribuir. Quando a quantidade era grande os nossos espíritos alegravam-se e todos ficávamos na expectativa de nesse dia sermos contemplados com notícias. No final da distribuição do correio, a alegria de uma minoria, que tinha sido contemplada, contrastava com a tristeza da maioria, que teria de continuar a acalentar esperanças durante mais uma semana.

 

A maior parte dos elementos da CART 2731 era proveniente de famílias simples e humildes, pouco dotadas para as letras, pelo que a troca de correspondência com os seus familiares era muito reduzida.

 

Recordo-me, numa dessas vezes, do olhar triste e longínquo de um elemento da CART 2731 a quem eu vou chamar António (o nome é fictício, mas o visado, se ler esta estória, sabe que estou a falar dele).

 

- Então António, hoje não tiveste sorte? Não recebeste nenhum bate-estradas (aerograma)?

- Meu furriel é quase sempre assim, os meus familiares mal sabem escrever eu também pouco escrevo, quase nunca recebo correspondência;

- Porque é que não arranjas uma madrinha de guerra? Assim, já terias quem te escrevesse mais vezes;

- Meu furriel eu até gostava, mas não conheço ninguém, mal sei escrever e se mandar uma carta a alguém não me vai responder de certeza;

- Deixa lá António, vamos pensar nisso.

Pensei no assunto e a Milena, da Agência Militar, foi a primeira pessoa que me veio ao pensamento. Era uma pessoa educada, simpática, afável e muito compreensiva e, pelo que conhecia dela, aceitaria ser madrinha de guerra do António.

 

No dia seguinte abordei o António e disse-lhe:

- Ouve, a Milena vai ser a tua madrinha de guerra, escreve-lhe uma carta a convidá-la que ela não vai dizer que não;

- E quem é a Milena? perguntou o António;

- É uma antiga colega com quem trabalhei em Lisboa, na Agência Militar, educada, simpática, afável e muito compreensiva;

- Eu gostava, mas não sei o que lhe hei-de dizer na carta;

- Deixa lá, não faz mal, se quiseres eu escrevo a carta;

- Claro que quero, disse o António.

 

 Nesse mesmo dia escrevi uma carta para a Milena, falando-lhe da minha (do António) condição de soldado, psicologicamente abatido, desterrado nos confins de Angola, longe dos familiares e amigos, lutando pela defesa da integridade do nosso Portugal, arriscando a minha vida nessa missão.

 

 A puxar para o sentimento, terminei a carta recordando como considerava importante um pouco de conforto moral de uma madrinha de guerra para levar alguma felicidade aos meus difíceis e atribulados dias na mata e rematei com o convite, Milena quer ser minha madrinha de guerra? Eu sei que vai aceitar. Fico a aguardar ansiosamente a sua resposta.

 

Chamei o António li-lhe a carta que tinha escrito e perguntei se concordava ou queria alterar alguma coisa. Está óptima meu furriel, pode enviar. É lá seguiu o aerograma tendo como destinatário a Milena com morada na Agência Militar, em Lisboa, e como remetente o António, da CART 2731.

 

A resposta não se fez esperar e passadas duas semanas, depois da distribuição do correio, o António veio ter comigo, com um sorriso de felicidade de orelha a orelha, com um aerograma na mão ainda fechado, dizendo meu furriel, meu furriel, a Milena respondeu-me, pode ler a resposta? E lá vinha a ansiada resposta da Milena. Sim, não me importo de ser sua madrinha de guerra, mas gostaria que me dissesse como soube o meu nome, quem lhe disse onde trabalhava, quem sugeriu que me escrevesse, enfim aquelas perguntas normais para satisfazer a sua curiosidade.

 

- Estás a ver António, eu não te disse que a Milena não se importava de ser tua madrinha de guerra? Agora é só continuares a escrever-lhe;

- Mas eu mal sei escrever, o furriel não se importa de escrever por mim?

- Está bem, dizes-me o que queres que eu ponha na carta e eu escrevo;

- É melhor o meu furriel arranjar a conversa, tem mais jeito para isso;

- Ok. Está bem.

 

Na segunda carta à Milena lá lhe disse que tinha sido um meu amigo de nome Santos que a conhecia, mas que ela não devia conhecer (nós na tropa éramos conhecidos pelo apelido e o Santos não dizia certamente nada à Maria), que tinha sugerido o seu nome para minha (do António) madrinha de guerra.

 

Penso que não terá ficado muito convencida com a explicação, mas a troca de correspondência continuava, cada vez com mais assiduidade.

 

Todas as semanas, depois da distribuição do correio, lá vinha o António com um ou dois aerogramas na mão, ar sorridente, muito feliz, e dizia-me:

 

- Meu furriel vamos ler e responder à Milena?

- Vamos a isso, dizia eu.

 

Foi assim que continuei a escrever várias cartas à Milena e a ler as suas respostas, durante vários meses, até ao fim da comissão do António.

 

Recordo ainda que, passadas algumas semanas, o António e a Milena concordaram em trocar fotografias para se conhecerem.

 

O António tinha um pequeno complexo, considerava-se um homem de baixa estatura (a sua altura rondaria 1,65 m).

 

Assim, para aparentar um jovem mais alto, comprou uns sapatos com um tacão com cerca de 10 cm de altura, que se usavam na época. As calças à boca do sino escondiam o tacão do sapato e, sem grande dificuldade, a altura do António passou de 1,65m para 1,75m.

 

E assim foram tiradas as fotos do António no fotógrafo em Ambriz que, alguns dias depois, haviam de chegar às mãos da Milena.

 

Aquela troca de correspondência, que teve como objectivo dar apenas um pouco de apoio moral ao António, começou a transformar-se muito rapidamente numa grande amizade e, penso até, numa forte paixão entre duas pessoas que não se conheciam.

 

Nos últimos aerogramas já faziam planos para depois do fim da comissão.

 

A comissão da CART 2731 acabou em Junho de 1972. O António regressou à vida civil e eu continuei em Angola até ao final de Maio de 1973 para cumprir o resto da minha comissão de serviço.

 

Não sei como terminou esta estória. Nunca mais tive notícias da Milena nem do António. Tanto quanto julgo saber o António reside actualmente na zona de Algueirão – Mem Martins.

 

O António nunca foi a nenhum dos nossos convívios anuais, talvez porque não tenha tido conhecimento da sua realização, mas gostaria de voltar a revê-lo num desses almoços.

publicado por Franquelino Santos às 17:07
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Sábado, 19 de Novembro de 2011

O dilagrama

 

ambriz.jpg

 

 

Em 29 de julho de 1971, a CART 2731 foi encarregada de dar protecção a um grupo de civis de uma companhia petrolífera francesa, a TOTAL, que andava a fazer prospecção de petróleo na zona do Ambriz. Essa missão foi incumbida ao meu grupo de combate, comandado pelo alferes Costa, infelizmente já falecido.

 

A missão correu sem incidentes. No regresso, eu e a minha secção seguíamos no último unimog da coluna. Logo à nossa frente seguia o unimog do alferes Costa, com outra secção.

 

 O alferes Costa tinha o hábito de andar sempre com um dilagrama instalado na G3. Nesse dia ao passar por baixo de uma árvore, o dilagrama embateu num dos ramos e caiu ao chão. Ao aperceber-se do sucedido o alferes mandou parar o condutor do seu unimog que, felizmente, só deteve a viatura alguns metros mais adiante.

 

Quando o unimog onde eu seguia estava a passar no local em que caiu o dilagrama, deu-se a explosão da granada, ouviu-se um enorme estrondo e viu-se uma pequena bola de fogo.

 

Pensámos tratar-se de um ataque. Saltámos imediatamente para o chão com a viatura em movimento, como que impulsionados por uma mola, e preparámo-nos para a defesa. Quase de imediato, o alferes aproximou-se de nós, perguntando se havia alguém ferido. De seguida explicou o que tinha acontecido.

 

 

Por sorte, a granada caiu num grande buraco que havia na valeta da picada e apenas a parte inferior do unimog foi atingida por pequenos estilhaços. Podia ter sido uma grande tragédia, mas a sorte protegeu-nos. Penso que a partir dessa data o alferes Costa nunca mais utilizou dilagrama na G3.

 

Nota -  Para quem não sabe, o dilagrama era um dispositivo que conjuntamente com a granada de mão defensiva M/63 ao qual se fixava, permitia obter - utilizando a espingarda automática G3 - alcances superiores aqueles conseguidos pelo combatente, diminuindo assim o perigo para as nossas tropas.

 

O dilagrama permitia, ainda, bater ângulos mortos, sendo possível o seu emprego contra guerrilheiros abrigados. O cartucho propulsor sem bala, tinha uma carga de 2,2 gramas de uma mistura pólvora esférica e pólvora tipo 1, não se podendo empregar qualquer outro tipo de cartucho.

 

Era um dispositivo muito eficaz, mas muito perigoso, porque ao ser utilizado na mata podia bater inadvertidamente num ramo de uma árvore , soltar-se do cano da G3 e explodir. Havia, ainda o perigo, de não ser usado, por engano, o cartucho sem bala e neste caso a granada explodia de imediato quando era disparada a G3. Houve muitos mortos e feridos na guerra do ultramar provocados pelo uso indevido deste dispositivo.

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publicado por Franquelino Santos às 08:34
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Sábado, 12 de Novembro de 2011

Ambriz

 

A CART 2731 foi transferida de Luvuei para Ambriz, em Junho de 1971. Era uma vila pequena, mas que reunia todas as condições para levarmos uma vida normal. Havia mulatinhas simpáticas, praia, cinema, restaurantes, cafés, boas lagostas, campos para a prática de futebol de onze e de salão, enfim um pouco de tudo.

 

  

A Companhia ficou instalada no antigo hospital da vila, que servia de quartel. Aquelas instalações eram, contudo, insuficientes para albergar todos os efectivos da companhia, pelo que alguns dos graduados ficaram instalados em casas particulares que se encontravam devolutas e foram arrendadas pela tropa.

 

A CART 2731 tinha dois destacamentos a seu cargo, um junto ao mar, a cerca de uma dúzia de quilómetros da vila, o Capulo, e outro, o de Freitas Morna, na estrada para Ambrizete junto à ponte do rio Loge.

 

Enquanto estivemos no Ambriz a nossa actividade militar era reduzida, algumas escoltas e patrulhamentos, reabastecimentos aos nossos dois destacamentos já referidos, capinagem da estrada de Ambriz até ao entroncamento com a estrada que seguia para Ambrizete, e pouco mais.

 

Embora aquela estrada tivesse mais de cinco metros de largura, devido ao pouco uso, o capim invadia o asfalto e apenas deixava visível uma pequena faixa de rodagem. Por isso, havia necessidade de cortá-lo (capinagem) periodicamente.

 

 

 

As nossas horas de lazer eram passadas na praia, a praticar desporto, a jogar ao póquer ou a beber uns canhangulos (imperiais) gelados, acompanhados de marisco freso (camarão e lagostas) acabado de cozer, na cervejaria do senhor João.

 

Relativamente ao desporto, para além dos torneios de futebol de salão que disputámos com equipas de outras unidades militares, disputámos alguns jogos de futebol de onze contra a equipa local, o Clube Recreativo do Ambriz, que terminaram todos com a vitória da equipa da CART 2731. O último desses jogos foi disputado em 1 de Agosto de 1971 e terminou com um conclusivo 4 - 1.

 

  

Segundo nos informaram, a equipa do Clube Recreativo do Ambriz já não perdia com equipas militares há vários anos, mas a nossa equipa contava com bons jogadores, alguns deles, antes do ingresso na vida militar, jogavam em algumas das equipas mais representativas da Madeira, nomeadamente no Nacional e no Marítimo.

 

A praia era outro dos passatempos preferidos. Alguns quilómetros de areal, um mar muito calmo, águas límpidas e óptima temperatura da água proporcionavam-nos bons momentos de lazer. A praia escondia, contudo, alguns perigos para os menos prevenidos. Apesar de não ser muito frequente, os pescadores locais costumavam capturar pequenos tubarões, a pouco mais de 200 metros da praia. Assim, havia necessidade de tomar algumas precauções quando íamos à água, nomeadamente não nos afastarmos muito.

 

 

Resumindo, estavam reunidas as condições para passarmos um fim de comissão em beleza, pensávamos nós. Mas foi sol de pouco dura.

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publicado por Franquelino Santos às 10:53
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Sábado, 5 de Novembro de 2011

Primeira saída para a picada

Quando cheguei ao Luvuei, no dia 25 de Maio de 1971, para ser integrado na CART 2731, em rendição individual, os meus camaradas de armas tinham cerca de 13 meses de comissão e uma vasta experiência de guerra, por força das acções em que já tinham participado. Passaram muitos dias e muitas noites na mata, envolvidos em batidas e operações, tiveram vários contactos (troca de tiros) com o inimigo, sofreram e montaram emboscadas, efectuaram diversos MVL’s (movimento de viaturas logísticas) entre as cidades do Luso e de Gago Coutinho, numa distância de mais de quatrocentos quilómetros, percorridos por picadas minadas, foram protagonistas de rebentamentos de minas anti-pessoais e anti-carro e sofreram inclusive um ataque ao quartel do Luvuei, em 4 de Fevereiro de 1971.

 

A minha experiência de guerra resumia-se à instrução que me tinha sido dada nos quartéis de Santarém e de Vendas Novas, ou seja, não era absolutamente nenhuma. Mas, alguma vez tinha que acontecer a minha primeira saída para a picada. E aconteceu precisamente num dos primeiros dias do mês de Junho de 1971, em data que já não consigo precisar. Mas recordo-me, como se fosse hoje, de várias cenas dessa primeira saída.

 

A CART 2731 tinha um destacamento no Lutembo que era reabastecido semanalmente a partir do quartel do Luvuei. A distância entre as duas localidades rondaria os 60 quilómetros, que tinham de ser percorridos por picada. A paisagem, no leste de Angola, caracterizava-se por imensas planícies, as chanas, cobertas de capim, onde em alguns locais, surgiam pequenas zonas de mata cerrada.

 

O principal perigo nas picadas eram as minas, mas também não podíamos descurar a hipótese de uma emboscada numa dessas zonas da mata. E entre o Luvuei e o Lutembo havia precisamente uma zona de mata cerrada, no interior da qual a Unita tinha um acampamento, o Catóio, sobejamente conhecido de todos o militares que passaram por aquela zona. O MPLA também andava por aquelas paragens.

 

Naquele dia, no início do mês de Junho de 1971, de que já não me recordo a data, coube-me comandar a pequena coluna que ia fazer o reabastecimento ao destacamento do Lutembo.

 

Eram cerca de uma dúzia de homens, que se faziam transportar em dois unimogs e uma berliet. Um unimog seguia na frente da coluna, a berliet no meio e o outro unimog na retaguarda. Eu ocupei o unimog da frente. Todos os militares estavam equipados com espingardas automáticas G3 e alguns também com granadas defensivas e ofensivas presas ao cinturão, junto às cartucheiras e aos cantis da água. Estávamos equipados, ainda, com uma bazuca e com um morteiro 60mm. Em cima da caixa da berliet, que servia para transportar os víveres para o reabastecimento, foi montada uma metralhadora MG42, num tripé, junto da qual seguia o apontador. A zona por onde íamos passar era altamente perigosa e era necessário tomar precauções.

 

As populações civis estavam acantonadas junto aos aquartelamentos militares e não podiam sair da sua zona, sem autorização. Qualquer pessoa que fosse encontrada na mata, fora do perímetro estabelecido pela tropa, era considerada um potencial inimigo.

 

A pequena coluna saiu a meio da manhã. Talvez devido à minha inexperiência, todo aquele aparato militar impressionou-me bastante. Para os restantes elementos do grupo, já com mais de um ano de experiência de guerra naquela zona, aquilo era uma situação normal. Só nessa altura me convenci definitivamente que estava envolvido numa guerra e que o perigo era iminente. Em qualquer ponto da picada podia estar colocada uma mina anti-carro ou em qualquer local do nosso percurso o inimigo podia ter montado uma emboscada à espera da nossa passagem.

 

 

 

 

Percorridos alguns quilómetros atingimos o rio Lumai, que era atravessado através de uma ponte (imagem acima), construída em madeira, que já tinha sido destruída várias vezes pelo inimigo e reconstruída pelas nossas tropas. Muitos elementos da CART 2731 já ali tinham ficado emboscados várias vezes nas noites anteriores à passagem dos MVL’s do Luso para Gago Coutinho e vice-versa, para evitar que o inimigo destruísse a ponte e impedisse a passagem do MVL.

 

Mais uns quilómetros à frente, avistámos, em cima de umas árvores secas no meio do capim, a pouca distância da picada, um bando de galinhas de mato. Parámos para não espantar a caça e tentámos abater algumas, mas sem êxito. É que abater uma galinha de mato a uma centena de metros de distância com uma G3 é tarefa quase impossível. Se não se acerta ao primeiro tiro o bando levanta voo e não há mais hipóteses.

 

Também não teremos perdido grande coisa, porque, segundo dizem (nunca provei), aquela carne é muito rija e de pouca qualidade. Serviu, no entanto, para aliviar um pouco a nossa pressão.

 

A viagem continuou até nos aproximarmos de um pequeno morro com uma zona de mata densa, no lado esquerdo da picada, local propício para uma emboscada. Foi, aliás, nesta zona que alguns tempos depois, em 15 de Novembro de 1973, 2 Grupos de Combate da 2042ª Companhia de Comandos cairam numa emboscada, tendo sofrido 5 mortos e 15 feridos.

 

Efectuámos nova paragem, a alguma distância da mata, e por precaução batemos a zona com rajadas de metralhadora, arma com grande cadência de tiro, que disparava cerca de 600 balas por minuto. Normalmente, quando isto acontecia, se o inimigo estava emboscado, havia tendência para responder ao nosso fogo, denunciando a sua localização, fazendo abortar a emboscada. Não houve resposta e continuamos a marcha.

 

Ao aproximarmo-nos de um local chamado Casa Branca, junto à picada que dava acesso ao Catóio, avistámos um negro à nossa frente, que seguia a pé na picada no mesmo sentido que o nosso. Aparentava ser pessoa de meia-idade, ia descalço, vestia apenas uns calções e não parecia estar armado. Os soldados reagiram de imediato gritando “Furriel é turra, mata-se antes que o gajo fuja”. O meu coração começou a bater mais forte e gritei energicamente: Ninguém dispara, não se abate um homem desarmado. Vou mandá-lo parar, vou buscá-lo e seguirá connosco para o Lutembo. Só faremos fogo se ele não obedecer e tentar fugir. Os soldados tentaram dissuadir-me da minha decisão, argumentando que tinham muita experiência e que aquele procedimento era perigoso, porque o fulano podia estar a servir de isco para nos conduzir a uma armadilha.

 

Mantive a decisão e mandei parar o unimog e a uma distância razoável do indivíduo ordenei-lhe que parasse com as mãos em cima da cabeça, no que fui prontamente obedecido. Com a espingarda G3 em posição de tiro de rajada fui até junto homem e perguntei-lhe o que fazia por ali, tendo-me respondido que era do Luvuei, donde tinha saído com autorização do Comandante da CART 2731 para ir ver os familiares ao Lutembo.

 

Não acreditei na história e disse-lhe que teria de seguir connosco para o Lutembo para esclarecer aquela situação. No unimog os soldados ainda o quiseram mimosear com algumas “carícias”, que não permiti. É que a acção psicológica era uma das melhores armas que tínhamos naquela guerra de guerrilha. O bom relacionamento com os nativos era meio caminho andado para diminuir os problemas com os turras. Não nos podíamos esquecer que a maioria dos turras que actuavam na nossa zona eram pais, irmãos, filhos e outros familiares e amigos desses nativos.

 

Chegados ao Lutembo, contactei, via rádio, o Comandante da CART 2731, que estava no Luvuei, que confirmou que no dia anterior tinha autorizado um nativo a ir visitar a família ao Lutembo. Pela descrição parecia coincidir com o indivíduo que capturámos. Assim, o homem lá foi à sua vida, provavelmente satisfeito por só ter feito metade da viagem a pé, embora o resto tenha sido uma boleia forçada.

 

Foi uma saída sem grandes peripécias, mas talvez por ser a primeira estas cenas ficaram para sempre gravadas na minha memória. Ainda hoje acho estranho que um indivíduo se deslocasse cerca de 60 quilómetros a pé pela mata sem outro objectivo que não fosse visitar os familiares, uma vez que para esse fim podia perfeitamente ter pedido boleia à nossa tropa que todas a semanas se deslocava ao Lutembo.

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publicado por Franquelino Santos às 13:31
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