Domingo, 26 de Fevereiro de 2012

Regresso a Ambriz

 

Estávamos no início do mês de Março de 1972, quando recebemos a notícia de que a missão da CART 2731 na zona de Santa Cruz tinha terminado e que iriamos regressar a Ambriz.

 

A notícia foi recebida com grande satisfação porque terminava uma das nossas missões mais difíceis em Angola, não tanto pela sua perigosidade, mas essencialmente pelas condições a que estivemos sujeitos durante mais de seis meses: total isolamento no meio da mata, instalados em tendas de campanha, sem as condições mínimas aceitáveis.

 

 

Contudo, havia, ainda, outro motivo acrescido para a nossa satisfação: é que a comissão de serviço em Angola da CART 2731 estava a aproximar-se do fim e as nossas estadias na mata tinham, provavelmente, os dias contados. Iriamos ter finalmente alguns dias de merecido descanso na Vila de Ambriz, antes de regressarmos às nossas casas, na Metrópole.

 

Por isso, o regresso a Ambriz foi uma viagem feita com boa disposição, em que aproveitámos para disfrutar pela última vez a beleza das matas do norte de Angola, que têm tanto de fascinantes como de perigosas.

 

Para traz ficavam vilas e localidades como Santa Cruz, Macocola, Sanza Pombo, Negage, Camabatela, Samba Caju, Carmona, Salazar, Quitexe, Piri, entre outras, que a maioria de nós não voltou a visitar.

publicado por Franquelino Santos às 19:54
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Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2012

Falso alarme

 

A estadia da CART 2731 na Aldeia Natal durou pouco mais de dois meses, que se passaram sem grandes percalços.

 

Apenas uma vez fomos surpreendidos por um forte tiroteio na mata, a cerca de dois ou três quilómetros de distância do nosso destacamento, que claramente não se destinava a nós, mas a nossa adrelina começou a subir imediatamente.

 

Foram dadas instruções para que um dos grupos de combate, no qual eu me incluía, se deslocasse para aquela zona e em menos de cinco minutos as viaturas já estavam em marcha, a cminho do objectivo.

 

 

Não tínhamos conhecimento que existissem tropas nossas a circular naquela área, mas podia muito bem ter acontecido que algum grupo de combate das companhias instaladas em Santa Cruz ou em Quícua andassem por ali e tivessem sido alvo de alguma emboscada e, nesse caso, era necessário ajudá-los.

 

O tiroteio não demorou mais de 10 minutos e nesse espaço de tempo o nosso radiotelegrafista teve oportunidade de confirmar, via rádio, que não havia militares das nossas tropas na nossa área de ação. Provavelmente terá sido alguma escaramuça entre grupos de guerrilhas de movimentos diferentes (MPLA e FNLA), o que sucedia com alguma frequência. "Eles" andavam por ali.

 

Tendo-se concluído que aquele tiroteio não tinha a ver connosco, regressámos ao destacamento e aquele episódio não chegou sequer a ser um susto, serviu apenas para quebrar um pouco a rotina diária das nossas vidas na Aldeia Natal.

publicado por Franquelino Santos às 19:12
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Sábado, 4 de Fevereiro de 2012

O reasbastecimento

 

Normalmente, a maioria das unidades militares instaladas em zonas operacionais eram reabastecidas, com víveres, combustíveis e material de aquartelamento, pelos MVL's (Movimentos de viaturas Logísticas). 

 

A aldeia Natal era uma das excepções. Acampámos ali temporariamente durante um período em que estávamos a dar proteção a uma companhia de Engenharia que fazia a manutenção da picada entre Quicua e Sanza Pombo, e aquele local não estava na rota de nenhum MVL. Por isso erámos nós que tínhamos de tratar do nosso próprio reabastecimento. Assim, quando necessário, um dos nossos grupos de combate deslocava-se aos Serviços de Intendência, em Sanza Pombo, onde nos reabastecíamos.

 

As deslocações eram perigosas, porque aquela zona era propícia a emboscadas. Apesar disso, havia sempre voluntários para as idas a Sanza Pombo, porque valia a pena correr o risco, só para sair, durante algumas horas, da monotonia que era a nossa vida na Aldeia Natal.

 

Participei, apenas, num desses reabastecimentos, mas recordo para sempre essa experiência. Já não me lembro da distância da Aldeia Natal a Sanza Pombo, mas não seriam mais de trinta quilómetros, que demoraram várias horas a percorrer. O estado da picada, com buracos enormes, era lastimável, obrigando a muitas paragens. Com a ajuda ds unimogs (burros de mato) lá iamos conseguindo desatolar as berliets e ultapassar as dificuldades que se nos iam deparando.

 

Já tinha ouvido falar nos famosos morros de salalé, mas foi nesta deslocação a Sanza Pombo que os vi pela primeira vez.

 

 

Construídos em argila por formigas com o mesmo nome, são autênticas obras de arte, que chegam a atingir uma altura superior a dois metros. No interior contêem galerias com largas centenas de metros por onde circulam as formigas. 

 

O morro de salalé, com uma tonalidade vermelha característica de toda aquela zona, destaca-se perfeitamente do ambiente onde se encontra, mesmo à distância, sobressaindo como um elemento contrastante com a verdura da mata envolvente.

 

O morro é muito consistente e praticamente invulnerável às balas das nossas espingardas G3. Aliando este facto ao destas formigas serem inofensivas, o IN (inimigo) chegou a montar emboscadas às NT (nossas tropas) utilizando estes morros para se protegerm dos nossos disparos.

 

Por volta das 12 horas, chegámos finalmente a Sanza Pombo. Aproveitámos para almoçar naquela vila, no Clube Recreativo local. O petisco nestas ocasiões era quase sempre o mesmo, frango no churrasco com gindungo, acompanhado com batatas fritas e regado, quando havia, com vinho verde Casal Garcia, o que era um luxo, naquelas paragens. Naquele dia, mais uma vez, fomos fiéis à tradição. Comemos bem e bebemos ainda melhor.

 

 

Ainda me recordo da aposta feita com um dos alferes no final do almoço antes de nos levantarmos da mesa: punhamos uma garrafa de vinho vazia a rolar pelo chão da sala e o alferes, que aceitou a aposta, se fosse capaz de dar uma cambalhota em frente e apagar a garrafa ainda em andamento ganharia uma garrafa de vinho Casal Garcia cheia. E foi ver o alferes às cambalhotas na sala até que o dono veio pedir para terminar com a brincadeira, porque dava mau aspecto, uma vez que estava a ser presenciada por muitos civis que ali estavam a almoçar.

 

Na verdade, o cacimbo provocava reacções incontroláveis e nós, quase no final da comissão, dormimos muitas noites ao relento e estávamos completamente cacimbados.

 

Depois de bem almoçados, melhor bebidos e as viaturas carregadas com os víveres regressámos à Aldeia Natal. Da viagem de regresso já nada me recordo.

publicado por Franquelino Santos às 12:11
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