Sábado, 22 de Novembro de 2014

Sede, a quanto obrigas

Enquanto estive colocado em Cabo Ledo, o Comandante da Casa da Reclusão programava e obrigava a fazer alguns patrulhamentos no Parque Nacional da Quissama, zona que ocupava cerca de nove mil e seiscentos quilómetros quadrados.

 

Acções de "psico" compreendia perfeitamente o seu alcance, mas patrulhamentos numa zona em que não consta que alguma vez tivesse havido quaisquer problemas com a  guerrilha, nunca percebi o porquê. Enfim, quem podia mandava

 

Provavelmente até haveria alguns guerrilheiros no parque da Quissama a passar uns dias de férias, mas o seu objectivo seria certamente descansar durante esse período sem dar nas vistas e o que menos quereriam era arranjar complicações com a tropa.

 

Naqueles patrulhamentos, eramos transportados em viaturas militares, largavam-nos poucos quilómetros depois do destacamento, percorríamos a pé um itínerário previamente definido, pernoitávamos na mata e no dia seguinte, ao fim da tarde, eramos recolhidos num local anteriormente combinado.

 

Nos patrulhamentos o principal problema era a sede. Durante esses dois dias, tinhamos de percorrer a pé entre 20 a 30 quilómetros e transportar a arma e as munições, a comida (ração de combate) e a água, entre outros apetrechos. Por isso, a quantidade desse precioso líquido nunca era muita e mormalmente, devido às elevadas temperaturas que se faziam sentir, começava a escassear no segundo dia, esgotando-se mesmo nalguma situações.

Quissama.jpg  

Embora não proliferassem, havia alguns rios no interior do parque, mas grande parte das suas margens eram pantanosas e chegar ao seu curso era tarefa praticamente impossível.

 

Naquelas zonas, quando a água acabava nos nossos cantis e a sede apertava, não havia outra solução que não fosse reenchê-los no pântano, nas poças das pegadas deixadas por animais de grande porte (normalmente dos elefantes ou das pacaças). Usávamos um lenço como filtro e desinfectavamos a água com comprimidos "halazone", que nos acompanhavam sempre. Contudo, aquele líquido mais parecia café, devido à sua cor escura, do que água, mas matava a sede.

 

O mesmo problema tinham os animais selvagens durante a época seca, de Maio a Agosto, quando as lagoas secavam e os rios ficavam a grandes distâncias. Era normal vermos nas praias esqueletos de animais de pequeno porte que procuravam saciar a sua sede nas águas do oceano e ali acabavam por morrer.

 

Eu assisti muma dessas praias a uma cena impressionante. Uma gazela, quase moribunda, veio a cambalear beber na nossa mão, água que lhe demos do cantil. Era a luta pela sobrevivência, em que a sede do animal venceu o medo, mas o seu destino, como o de tantos outros, estava traçado. Passados alguns dias, depois de morta e devorada pelos abutres, seria mais um esqueleto na praia.

 

Sede, a quanto obrigas.

publicado por Franquelino Santos às 10:15
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Domingo, 16 de Novembro de 2014

"Safari" no Parque Nacional da Quissama

Li há dias num blog "Bicharocos é que nem vislumbre...! Às horas que cheguei (16 e picos...) já não eram horas decentes de observar os ditos, disse o guia Nelson...Teria de ser por volta das seis da manhã, quando acordam do seu sono de beleza e se dirigem para a água para o duche matinal...Bom! Lá terei de vir de novo cá! Bichos mesmo, só este passaroco azulão que com o seu olho amarelo arregalado, me fitava desconfiado..."

 

Ao ler estas linhas pensei: como fui um felizardo conhecer a Kissama nos idos 1972/1973. Como já tinha referido, cerca de dez meses da minha comissão foram passados em Cabo Ledo, onde a Casa da Reclusão tinha um destacamento.

 

Uma das tarefas que ali tinhamos a cargo era a "psico", ou seja, acções psicológicas que desenvolvíamos quinzenalmente, durante três dias, junto dos aldeamentos de nativos. Estas acções tinham como objectivo captar a população para o nosso lado, através de programas de educação, ajuda sanitária e económica. Por isso, durante esses dez meses percorri várias vezes o parque da Quissama.

 

Cada vez que saíamos para a picada era um verdadeiro safari. Relembro que na altura não havia estradas asfaltadas no parque, nem tão pouco exisitia a ponte sobre o rio Kuanza. Para atravessá-lo junto à foz era necessário utilizar uma jangada.

 

Foi pena não haver naquela altura as facilidades que hoje existem para registar aquelas imagens inolvidáveis em fotografia ou vídeo. Avistar imagens como esta era o cenário normal.

 

palanca.jpg

 

Anormal seria percorrer meia dúzia de quilómetros no parque e não avistar uma manada de pacaças, um grupo de leões ou de elefantes, palancas, burros de matos e várias outras espécies de animais de pequeno, médio e grande porte. Aves eram aos milhares.

 

Quando efectuavamos este tipo de operações dormiamos, por regra, na mata, ao relento. Porém, quando nos deslocavamos para a zona da Muxina, o fiscal (guarda florestal) tinha por hábito convidar o furriel, que normalmente comandava a operação, para dormir nessa noite num dos bungalows que ali havia e que serviam de habitação para o referido fiscal e sua família e de pernoita para os visitantes (na altura eram muito poucos) do parque.

 

bungalow.jpg

 

Recordo-me de uma das noites em que ali dormi e em que presencei uma das imagens mais fascinantes da minha vida e que nunca mais esqueci.

 

Quando me levantei, ao clarear do dia, a vista que tinha à minha frente, a pouco mais de 500 metros de distância, era a do rio Kwanza que serpenteava no meio da planicíe verdejante. Nas suas margens pastavam várias manadas de pacaças, cujo número total de cabeças não posso precisar, mas que pelo aspecto ascenderia a mais de duas centenas. Que quadro maravilhoso.

 

Condifenciou-me o fiscal que todas os dias, logo pela manhãzinha, era hábito aquelas  manadas pastarem naquele local.

 

Cuanza.jpg

 

Como as coisas mudaram. Provavelmente o Parque Nacional da Quissama nunca mais voltará a ser como dantes, apesar de saber que o governo de Luanda está a desenvolver grandes esforços para o repovoar.

publicado por Franquelino Santos às 12:41
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