Quinta-feira, 30 de Julho de 2020

A minha ida à guerra - Uma estória como tantas outras

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Tudo começou quando em Junho de 1970 fui colocado na Escola Prática de Cavalaria, em Santarém, para tirar a recruta. Foram cerca de 3 meses muito difíceis. A transição da vida civil para a vida militar não foi fácil, deixámos de ser considerados pessoas, até deixámos de ter nome, passámos a ser tratados por um número. Mas, enfim, lá chegou o fim da recruta e nova colocação, desta vez na Escola Prática de Artilharia, em Vendas Novas, para tirar a especialidade de atirador, se é que se podia chamar àquilo uma especialidade. Dias difícieis, também, mas um pouco menos dolorosos, talvez por começar a habituar-me àquela vida de cão, ou não fosse o homem um animal de hábitos. Naquela altura, o nosso pesadelo era, obviamente, a possibilidade, quase certeza, da mobilização para a guerra colonial.
 
Os instrutores, talvez para nos obrigar a aplicarmo-nos ao máximo, lá nos iam enganando e dizendo que os primeiros classificados no curso talvez tivessem hipóteses de ficar a dar instrução e não ser mobilizados. E nós, inocentemente, lá íamos acreditando e dando o nosso melhor. Fui o primeiro classificado do meu curso e também o primeiro a partir para o ultramar.
 
Acabada a especialidade, à excepção de eu e mais três camaradas, que fomos indigitados para dar a especialidade ao curso seguinte, todos os restantes foram mobilizados para a Guiné. Ainda acalentei algumas esperanças de escapar ao pesadelo da mobilização, mas o sonho desvaneceu-se muito rapidamente. Passados pouco mais de 15 dias, através de um sargento-ajudante, a notícia chegava, militar está mobilizado para Angola, para substituir um Furriel Miliciano na CART 2731, pode ir gozar 10 dias de férias e passado esse tempo apresente-se no Depósito Geral de Adidos, em Lisboa.
 
Decorridos os 10 dias, apresentei-me no Depósito Geral de Adidos, onde me deram uma guia de marcha, que apenas indicava como destino a CART 2731. Informaram-me, ainda, que deveria dirigir-me à Rocha de Conde de Óbidos, para embarcar no Vera Cruz, em 17 de Abril de 1971, com destino a Luanda.
 
Na data marcada lá estava eu, acompanhado dos meus familiares mais próximos, carregando duas enormes malas contendo aquilo que eu julgava adequado para aquelas circunstâncias. Não tive qualquer tipo de apoio, uma vez que fui mobilizado em rendição individual. Eu é que teria de transportar todos os meus haveres.
 
Hoje, passados 38 anos, ainda parece que estou a ver a hora da partida, lenços brancos a acenar no cais, choros, gritos, e nós a corresponder aos acenos, sem saber se seria o último adeus que fazíamos aos nossos entes queridos.
 
Por volta das 12 horas o Vera Cruz, apitando estrondosamente, começou a afastar-se do cais. Seguiram-se 9 dias de viagem mais ou menos calma. Os passageiros em número muito superior à lotação normal do navio, eram todos militares, uns mobilizados em rendição individual, como eu, outros, a esmagadora maioria, integrados em Companhias e Batalhões. Tudo me parecia um sonho, ou melhor um pesadelo. A chegada a Luanda ocorreu no dia 26 de Abril de 1971, também, por volta das 12 horas e só quando, por volta das 10 horas, comecei a avistar os primeiros contornos da costa, é que me mentalizei que ia para a guerra. E nesse momento começaram as minhas preocupações.
 
Sózinho, sem conhecer nada, com uma guia de marcha no bolso que apenas indicava como destino a CART 2731, pensava quando desembarcar o que é que vou fazer? Como vou conseguir chegar à CART 2731? Onde é que isso fica? As minhas preocupações já eram mais estas do que o facto de ir para a guerra. Com o objectivo de conseguir ajuda, ainda a bordo do Vera Cruz, estabeleci diálogo com um 1º sargento, homem experiente, que já ia na sua terceira comissão, que me disse quando chegam navios com tropa estão sempre camiões militares no cais que asseguram transporte para o Grafanil ou para o Depósito de Adidos. Apanhe um desses camiões com destino aos Adidos e quando lá chegar coloque o seu problema ao oficial-dia. Assim fiz, cheguei aos Adidos por volta das 13 horas, encaminharam-me para a Secretaria, onde um sargento me disse que ia tentar saber em que zona estava a CART 2731, mas que já sabia que eu vinha a caminho e que já tinha sido escalado para fazer serviço e que por isso tinha de entrar imediatamente de sargento-dia (vim a saber mais tarde que este era um expediente normal dos mais velhos, para se baldarem aos serviços, sempre que chegavam maçaricos)
 
Passada uma semana informaram-me na Secretaria que a CART 2731 estava sediada no leste de Angola, pelo que me deveria apresentar no quartel de Nova Lisboa, para receber instruções. Deram-me o bilhete para o machimbombo (autocarro) e, no dia seguinte, logo pela manhanzinha lá fui eu, cerca de seiscentos quilómetros de viagem, com várias paragens, um calor abrasador, uma paisagem deslumbrante e lá cheguei a Nova Lisboa quase no final do dia. A paragem do machimbombo ficava junto à estação dos Caminhos de Ferro e dali até encontrar uma residencial tive de percorrer cerca de um quilómetro a pé, porque táxis era coisa que não havia por aquelas paragens. Como tinha de transportar duas malas pesadíssimas, que continham as coisas que eu considerei indispensáveis para os dois anos de comissão, tive de recorrer a um estratagema: deixava uma mala para trás e ia colocar a outra cerca de 100 metros mais à frente, sem nunca perder de vista a que ficava para trás, voltava atrás e ia recolher a mala que tinha deixado. E assim repeti a operação cerca de uma dúzia de vezes, até que finalmente encontrei uma residencial a meio da avenida, se a memória não me atraiçoa, a residencial Porto, onde pernoitei uma semana.
 
Na manhã do dia seguinte dirigi-me ao quartel de Nova Lisboa e a resposta foi a mesma que me foi dada pelo quartel dos Adidos, que iam tentar saber onde estava a CART 2731 e que passasse por ali no dia seguinte. Esta lengalenga manteve-se também por mais uma semana, até que resolveram "despachar-me" para o Luso. Convém referir que em Nova Lisboa nunca me puseram de sargento-dia, fiquei com os dias totalmente livres.
 
Quando éramos mobilizados o Exército adiantava uma verba de 1.000$00, que era descontada no primeiro ordenado, o equivalente nos dias de hoje a 5€, para as despesas da viagem. Eu, para me precaver, levei, para além desse adiantamento, mais 2.000$00. Em situações normais os 1.000$00 seriam suficientes. Assim, em Luanda troquei apenas 1.000$00 por angolares e se fosse necessário logo trocaria mais. Quando os militares oriundos da Metrópole chegavam a Luanda, apareciam logo os candongueiros que trocavam escudos por angolares, pagando mais 10% (pelos 1.000$00 recebi 1.100 angolares). Estes negócios decorriam normalmente no largo fronteiro à Cervejaria Portugália, normalmente o ponto de encontro da tropa portuguesa.
 
Como fui mobilizado em rendição individual tive de suportar todas as minhas despesas de alojamento e alimentação até chegar à CART 2731, por isso os angolares voaram rapidamente.
 
Em Nova Lisboa já tive de trocar novamente os últimos 2.000$00 que me restavam. Como aqui já não era tão fácil encontrar pessoas para efectuar a troca, resolvi dirigir-me directamente à Agência do Banco Pinto & Sotto Maior, que ficava próxima da estação do caminho-de-ferro. Disseram-me que não era habitual efectuar esse tipo de troca mas que, por especial favor, podiam fazê-lo, mas que tinha que ser troca por troca, não havia acréscimo. Mesmo sabendo que estava a ser enganado, não me restou outra solução que não fosse aceitar (a necessidade assim o obrigava).
 
Após uma semana de permanência em Nova Lisboa lá segui para o Luso. Desta vez o meio de transporte foi o comboio, o célebre camacove, que parava em tudo o que era sítio, estações, apeadeiros, etc. Foram quase dois dias de viagem até ao Luso. Sai de Nova Lisboa ainda de madrugada e na noite desse dia, por motivos de segurança, o comboio ficou estacionado na estação do Munhango. No dia seguinte, também ainda muito cedo, o comboio retomou a sua marcha, tendo chegado ao Luso por volta das 13 horas de terça-feira, dia 11 de Maio de 1971.
 
comboio
As refeições eram tomadas no comboio, onde pernoitei também na estação de Munhango. Foi uma viagem inesquecível. O percurso era quase todo através da selva, onde a qualquer momento podíamos observar animais selvagens a correr ao lado do comboio. A esmagadora maioria dos passageiros eram militares. Quando o comboio parava, a estação ou apeadeiro, enchia-se de nativos, especialmente crianças, que aguardavam que os militares lhes dessem um lata de conserva ou um pacote de bolachas. Outros tentavam vender aos militares fruta da zona (bananas, manga, abacaxis, etc.) e recordações daquelas paragens (principalmente estatuetas esculpidas em madeira). Era um autêntico mercado ao ar livre, que decorria no espaço de dez ou quinze minutos, enquanto o comboio estava parado.
 
O quartel no Luso, onde me apresentei, distava pouco mais de 100 metros da estação e também aqui a conversa do sargento-dia foi a mesma: sabíamos que chegavas hoje, está na escala de serviço, já estás atrasado e tens de entrar de sargento-dia imediatamente. Enfim, lá alinhei mais uma vez.
 
Aqui já sabiam que a CART 2731 estava no Luvuei, a cerca de 300 quilómetros de distância do Luso, mas o problema era que o único meio de transporte para aquela localidade era o MVL (Movimento de Viaturas Logísticas), também designado por coluna militar, que era composta por várias viaturas civis com pessoas, equipamentos e mantimentos e várias viaturas militares para protecção e o MVL tinha saído nesse dia de manhã e só voltaria a haver MVL quinze dias depois.
 
Resultado mais duas semanas forçadas no Luso. Não é que não fosse agradável mas o problema é que os angolares já começavam a escassear. Arranjei uma residencial para pernoitar, mas o preço exorbitante por dormida, 105$00 por noite, não me permitiu ficar ali mais do que duas noites. A solução foi juntar-me a quatro furriéis que tinham uma vivenda arrendada e contribuir também para a renda. Assim a dormida passou a ficar-me por 20$00 cada noite.
 
Lá se passaram as duas semanas, uns dias de serviço no quartel, outros vagueando pelas ruas sem nenhum objectivo. Muitas horas foram ocupadas a ver futebol. É que, nesse ano de 1971, o Futebol Clube do Moxico estava a disputar um torneio distrital no Luso para apuramento da equipa que iria representar o distrito no Campeonato da 1ª divisão de Angola e as entradas eram à borla. Ainda me recordo alguns nomes de jogadores que faziam parte do plantel do Futebol Clube do Moxico, tais como, o Paixão (da CUF), Serra (do Barreirense), Vaqueiro (do Leixões), Carlos Rosário (do Nacional da Madeira). O Futebol Clube do Moxico ganhou o torneio e em 1973 viria a ser campeão provinicial de de Angola.
 
Tinha chegado o dia em que iria apresentar-me na CART 2731, terça-feira, dia 25 de Maio de 1971.
 
Logo pela manhã dirigi-me ao local onde era formado o MVL e apresentei-me ao comandante da coluna, o alferes Morais, dizendo-lhe que queria ir para a CART 2731. Ficou muito admirado por eu não trazer arma e eu fiquei a saber que, por coincidência, o referido alferes pertencia à CART 2731. Aconselhou-me a arranjar lugar numa das viaturas militares. Estava tudo ocupado à excepção da viatura que encabeçava a coluna, uma berliet, cheia de sacos de areia, que servia de rebenta minas.
 
E lá fui eu, não pensando no perigo que corria, sentado ao lado do condutor, até ao Luvuei. Pelo caminho houve breves paragens no Lucusse, onde estava sediado um Batalhão, e no Lunguebungo, onde estava instalado um destacamento de fuzileiros. A picada (caminho de terra batida) de Luso a Gago Coutinho era a mais minada de Angola, mas a viagem decorreu sem incidentes.
 
Verdadeiramente, cheguei à guerra, dia 25 de Maio de 1971, por volta das 18 horas, quase um mês depois de ter desembarcado em Luanda. Ainda me recordo da recepção do capitão Pimenta, comandante da CART 2731, que infelizmente já não está entre nós, sentado à porta do bar com um copo de whisky na mão “militar vais levar uma porrada, já chegaste a Luanda há um mês, andaste por aí desenfiado e nós aqui à tua espera”. Tentei justificar-me, mas logo percebi que aquilo não passava de uma brincadeira. Finalmente tinha chegado à guerra.
 
Franquelino Santos
Ex furriel miliciano - CART 2731
Angola, 1971
 
Última actualização em 2008-06-30
Franquelino Santos, Ex- Furriel Mil. da CART 2731
publicado por Franquelino Santos às 11:19
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Quinta-feira, 9 de Julho de 2020

A primeira noite na mata

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Durante a nossa comissão de serviço em Angola, eu e os meus camaradas da CART 2731, pernoitámos várias noites na mata, ao relento, sem o mínimo de condições, expostos aos mais variados perigos e muitas vezes à chuva.

 

Já decorreram mais de 49 anos e da grande maioria dessas noites já só retenho vagas recordações. Mas da primeira, embora não tenha sido a mais complicada, é a de que ainda hoje melhor me recordo, talvez por ter sido uma experiência diferente, a que eu não estava habituado.

 

Em finais de 1970, surgiu uma informação de que a FNLA teria conseguido infiltrar importantes forças de guerrilha na região de Santa Cruz, calculando-se que essa força não andaria longe dos 600 guerrilheiros. Embora os relatórios operacionais do Batalhão de Caçadores 2889, com responsabilidade da quadrícula da região, não confirmassem a existência de tantos guerrilheiros, é certo que a guerrilha desencadeou nessa altura várias operações violentas em Cabaca, Quimbele, Macocola e Massau.

 

Os altos comandos militares resolveram então lançar uma operação de grande envergadura, denominada Golpe de Flanco, na região de Santa Cruz de Macocola, que decorreu entre 3/1/1971 e 17/2/1971, com o objectivo de aprisionar destruir ou expulsar os eventuais grupos IN que se mantivessem nessa área.

 

No seguimento dessa operação, era necessário continuar a patrulhar com regularidade as matas que circundavam Santa Cruz, para impedir que os guerrilheiros voltassem a realojar-se na zona. Os patrulhamentos ficaram a cargo das forças militares que nessa altura actuavam na área de Santa Cruz, sendo a CART 2731 uma delas.

 

Em Outubro de 1971, em data que já não consigo recordar, o meu grupo de combate, comandado pelo alferes Costa, foi incumbido de efectuar um desses patrulhamentos. A ordem foi-nos transmitida na noite anterior à operação, pelo capitão Pimenta, Comandante da CART 2731.

 

Normalmente, só nos era dado conhecimento das operações poucas horas antes da sua realização, para que o sigilo fosse mantido. Desta vez, porém, não havia qualquer perigo de fuga de informação, porque estávamos instalados e isolados na mata, na Aldeia Capitão, a cerca de 20 quilómetros de distância de Santa Cruz, não havendo, por isso, qualquer possibilidade de contacto com a população. Mas as normas foram cumpridas da mesma forma.

 

Recebida a ordem, foi necessário efectuar os preparativos para a operação, que iria ter a duração de 2 dias. O grupo de combate era formado por cerca de 25 homens. A cada militar foram distribuídos 5 carregadores, com 20 munições cada um (4 carregadores eram transportados presos ao cinturão e o outro era introduzido na espingarda G3). Ao comandante do grupo (o alferes) e aos comandantes das secções (os furriéis) foram distribuídas também granadas defensivas e ofensivas, que eram igualmente transportadas presas ao cinturão. Para além das munições, foram fornecidas 2 rações de combate a cada um dos elementos do grupo. Tínhamos de transportar também água (normalmente 2 cantis por elemento), roupa interior e agasalhos para dormir ao relento.

 

Nestas operações a nossa carga (espingarda, munições, rações de combate, água e utensílios) facilmente ultrapassava os 15 quilos. Havia alguns ainda mais sacrificados. Era o caso do enfermeiro e do radiotelegrafista, que para além da carga normal, ainda tinham de transportar a bolsa de primeiros socorros e o rádio, respectivamente. A ração de combate continha os alimentos de um dia para as três refeições principais de um combatente: o pequeno-almoço, o almoço, o jantar. Embora o conteúdo não fosse igual em todas as embalagens, era composta basicamente pelos seguintes produtos: lata de leite achocolatado, lata de salsichas, fruta cristalizada, sardinhas em conserva, chocolate, pequenas embalagens de compotas, marmelada, uma lata de carne - por exemplo jardineira - uma lata de feijoada, sumo de laranja, sumo de ananás e bolachas sem sal.

 

Ao abrirmos a embalagem de uma ração de combate nunca sabíamos o que íamos encontrar no seu interior, pelo que, após a descoberta, procedíamos muitas vezes à troca de produtos entre nós, de acordo com os gostos de cada um. Apesar da comida das rações de combate ser intragável, o nosso problema principal era a água. Embora as matas que circundavam Santa Cruz fossem atravessadas por vários cursos de água, não era fácil localizá-los, por várias razões: a mata era muita densa e de difícil penetração e não nos podíamos desviar dos trilhos conhecidos, porque corríamos o risco de nos perdermos. Por isso, era necessário racionar esse bem precioso, porque, por vezes, andávamos várias horas, sob um sol abrasador, sem o encontrarmos e a capacidade dos cantis era muito reduzida.

 

Na madrugada do dia seguinte, o grupo estava preparado para a saída e, por volta das 6 da manhã, fomos transportados em unimogs até à fazenda Lopes, que se situava a cerca de 5 quilómetros de Santa Cruz. Ali, como havia uma grande plantação de abacaxis, aproveitamos para fazer o nosso pequeno-almoço com fruta fresca. É que a partir dali a nossa alimentação até ao fim do patrulhamento seria só à base das rações de combate.

 

Após o pequeno-almoço internamo-nos na mata. O trilho pelo qual seguimos, guiados por um nativo, era muito estreito, mas a progressão ia-se fazendo sem problemas de maior, para além do calor escaldante, amenizado pela sombra das árvores de grande porte, cujas copas se entrelaçavam e onde o sol quase não conseguia penetrar. Caminhávamos em silêncio absoluto. À nossa volta, apenas se ouvia o chilrear dos pássaros e os guinchos de alguns macacos que saltavam entre as árvores à nossa passagem.

 

O primeiro obstáculo surgiu após cerca de 3 horas de progressão. Pela frente tínhamos o rio Cugo que era necessário ultrapassar. Acompanhámos a margem direita do rio durante alguns minutos até encontrar uma zona onde se pudesse passar a vau para o outro lado. O rio corria calmamente, a água era límpida e transparente e não foi difícil encontrar um local seguro para ultrapassar aquele obstáculo. Ainda assim houve necessidade de tomar algumas precauções, principalmente para não deixar molhar a arma e as munições, porque a profundidade do rio nessa zona era de cerca de metro e meio.

 

Com a água acima da cintura, passámos para a outra margem com relativa facilidade, mas não podemos evitar que as nossas fardas tivessem ficado completamente encharcadas e as botas cheias de água.

 

Ultrapassado aquele obstáculo, encontramos, um pouco mais à frente, um local propício para efectuar uma pequena paragem. Depois de montada a segurança, almoçamos, obviamente com recurso à ração de combate, e aproveitámos para recuperar forças e mudar de meias, porque caminhar com as meias molhadas era muito incómodo e magoava os pés. Quanto às fardas não havia grande problema, porque em pouco tempo secariam mesmo no nosso corpo, devido ao grande calor que se fazia sentir.

 

Após aquela curta paragem, depois de termos enterrado os restos do almoço (as latas de conserva vazias e outro lixo) para não denunciar a nossa passagem por aquele local, prosseguimos a marcha.

 

Por volta das cinco horas da tarde, começámos a procurar um seguro local para pernoitar. Em África, naquela época do ano, anoitece por volta das 7 horas da tarde, a noite cai muito rapidamente e no interior da selva não era o sítio ideal para dormir.

 

Encontramos uma pequena clareira (local pouco arborizado) no cimo de um morro, que considerámos adequado, montámos segurança, jantámos e preparámo-nos para dormir umas horas.

 

Na mata, dormíamos vestidos e calçados, deitados no chão, tapados apenas pelo poncho, que era uma espécie de capa impermeável, que nos protegia do frio e da chuva. Quem achasse que eram necessários mais agasalhos, como por exemplo cobertores, tinha que os transportar na mochila que levávamos às costas, o que não era muito agradável, tendo em conta a carga (espingarda, munições, comida e água) que já éramos obrigados a suportar.

 

No leste de Angola, onde estivemos até Junho de 1971, as noites eram muito frias, atingindo, por vezes, temperaturas negativas. Aqui, no norte, não tínhamos esse problema, as noites até eram bastante quentes. O único senão é que estávamos na época das chuvas e quase todos os dias chovia.

 

Foi o que aconteceu naquela noite, em que choveu torrencialmente e, como não bastasse, caiu um trovoada medonha. O ribombar dos trovões era impressionante, viam-se faíscas no céu de todos os lados, quase parecia autêntico fogo de artifício. Foi a primeira vez que assisti a um espectáculo daqueles, que tinha tanto de belo como de aterrador.

 

Felizmente, que o poncho era muito eficaz contra a chuva, bastava que nos abrigássemos convenientemente e não havia pinga de água que nos atingisse. Naquelas condições não houve condições para dormir e a noite foi passada praticamente em claro.

 

Por volta das 7 horas da manhã, após termos tomado o pequeno-almoço, ainda não totalmente recuperados do esforço do dia anterior, retomámos a nossa acção de patrulhamento.

 

Após algumas horas de caminhada, sem outros problemas que não fossem os da dificuldade de progressão, encontramos uma zona de mata limpa, em que os arbustos, as lianas e as árvores de pequeno porte aparentavam ter sido cortados recentemente. Encontrámos, ainda, cubatas abandonadas e meio destruídas. Havia sinais de lume, indícios de que teria estado instalado ali, até há pouco tempo, um acampamento inimigo.

 

Nas proximidades eram visíveis pequenas áreas totalmente ardidas, provavelmente efeitos do último bombardeamento que a nossa Força Aérea efectuou na zona e que teria obrigado os guerrilheiros a retirarem para outro local. Embora os acampamentos inimigos não fossem visíveis do ar, devido à densidade da mata, uma vez que as copas das árvores de grande porte se entrelaçavam, não deixando ver nada do que passava a nível do solo, era hábito a Força Aérea bombardear as zonas consideradas mais propícias para a instalação de acampamentos inimigos e esta era uma delas.

 

Depois de termos inspeccionado o local minuciosamente, não se tendo encontrado outros vestígios, prosseguimos no trilho que nos conduziu, cerca de duzentos metros mais à frente, a uma clareira (zona plana desmatada), com uma área considerável, onde havia algumas árvores de fruto (mangueiras, bananeiras, papaieiras), restos de plantações de mandioca, jindungueiros (arbusto que produz o jindungo, a que nós chamamos em Portugal piripiri), etc. Era um pequena fazenda abandonada.

 

Ao fundo da clareira, na orla da mata, via-se uma casa em ruínas, construída em tijolo e cimento, que, provavelmente, teria pertencido a um antigo colono europeu, antes do eclodir da guerra. Os nativos não tinham acesso àquele tipo de habitação. Viviam em palhotas, em que as paredes eram construídas com uma mistura de capim e de barro amassados e o telhado coberto por capim. A casa estava completamente em ruínas. Não havia portas nem janelas, nem sequer tinha telhado. Restava-lhe apenas parte das paredes, pintadas de branco, com centenas de furos provocados por balas, sinal evidente de que tinha sido alvo de um ataque muito violento.

 

Não sei qual teria sido a sorte do seu proprietário, uma vez que, aparentemente, não tinha possibilidade de resistir por muito tempo ao ataque ou de fugir, porque a casa situava-se em pleno coração da mata. Embora do local à vila de Santa Cruz não distassem mais de dez quilómetros em linha recta, pelo meio estava a imensidão da mata, um obstáculo quase intransponível para quem pretendesse fugir. No interior daquelas ruínas apenas encontramos destroços, cápsulas de balas e nada mais.

 

Tratando-se de uma zona potencialmente muito perigosa, redobrámos as nossas precauções e prosseguimos em fila indiana junto à orla da mata, rumo a Santa Cruz. O sol abrasava e o silêncio era absoluto. Seguíamos com as espingardas apontadas para a mata, embora, devido à sua densidade, a visão fosse praticamente nula.

 

De repente, ouviu-se um barulho, como o de alguém que tentava fugir apressadamente entre o emaranhado da mata. Como que impulsionados por uma força invisível, lançamo-nos imediatamente para o chão e deitados, de armas apontadas para a mata, prontas a disparar, aguardámos o evoluir da situação para reagir.

 

Passámos poucos mas longos minutos imóveis nessa posição, numa enervante espera, mas, felizmente, nada aconteceu. Provavelmente o ruído terá sido provocado por alguma gazela ou outro animal qualquer que pastava na orla da mata e ao pressentir a nossa aproximação fugiu, procurando refúgio no interior da selva. Desta vez foi apenas um susto, mas na mata todas as precauções eram poucas.

 

Passado o susto, retomamos a marcha e algumas centenas de metros mais à frente internámo-nos novamente na mata, seguindo um trilho que nos havia de conduzir a Santa Cruz de Macocola, onde chegámos por volta das 4 horas da tarde.

 

A nossa operação estava terminada, desta vez sem problemas. Ali, aguardavam-nos unimogs da CART 2731, que nos transportaram até ao nosso acampamento, na Aldeia Capitão.

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publicado por Franquelino Santos às 11:02
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