Quinta-feira, 30 de Julho de 2020

A minha ida à guerra - Uma estória como tantas outras

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Tudo começou quando em Junho de 1970 fui colocado na Escola Prática de Cavalaria, em Santarém, para tirar a recruta. Foram cerca de 3 meses muito difíceis. A transição da vida civil para a vida militar não foi fácil, deixámos de ser considerados pessoas, até deixámos de ter nome, passámos a ser tratados por um número. Mas, enfim, lá chegou o fim da recruta e nova colocação, desta vez na Escola Prática de Artilharia, em Vendas Novas, para tirar a especialidade de atirador, se é que se podia chamar àquilo uma especialidade. Dias difícieis, também, mas um pouco menos dolorosos, talvez por começar a habituar-me àquela vida de cão, ou não fosse o homem um animal de hábitos. Naquela altura, o nosso pesadelo era, obviamente, a possibilidade, quase certeza, da mobilização para a guerra colonial.
 
Os instrutores, talvez para nos obrigar a aplicarmo-nos ao máximo, lá nos iam enganando e dizendo que os primeiros classificados no curso talvez tivessem hipóteses de ficar a dar instrução e não ser mobilizados. E nós, inocentemente, lá íamos acreditando e dando o nosso melhor. Fui o primeiro classificado do meu curso e também o primeiro a partir para o ultramar.
 
Acabada a especialidade, à excepção de eu e mais três camaradas, que fomos indigitados para dar a especialidade ao curso seguinte, todos os restantes foram mobilizados para a Guiné. Ainda acalentei algumas esperanças de escapar ao pesadelo da mobilização, mas o sonho desvaneceu-se muito rapidamente. Passados pouco mais de 15 dias, através de um sargento-ajudante, a notícia chegava, militar está mobilizado para Angola, para substituir um Furriel Miliciano na CART 2731, pode ir gozar 10 dias de férias e passado esse tempo apresente-se no Depósito Geral de Adidos, em Lisboa.
 
Decorridos os 10 dias, apresentei-me no Depósito Geral de Adidos, onde me deram uma guia de marcha, que apenas indicava como destino a CART 2731. Informaram-me, ainda, que deveria dirigir-me à Rocha de Conde de Óbidos, para embarcar no Vera Cruz, em 17 de Abril de 1971, com destino a Luanda.
 
Na data marcada lá estava eu, acompanhado dos meus familiares mais próximos, carregando duas enormes malas contendo aquilo que eu julgava adequado para aquelas circunstâncias. Não tive qualquer tipo de apoio, uma vez que fui mobilizado em rendição individual. Eu é que teria de transportar todos os meus haveres.
 
Hoje, passados 38 anos, ainda parece que estou a ver a hora da partida, lenços brancos a acenar no cais, choros, gritos, e nós a corresponder aos acenos, sem saber se seria o último adeus que fazíamos aos nossos entes queridos.
 
Por volta das 12 horas o Vera Cruz, apitando estrondosamente, começou a afastar-se do cais. Seguiram-se 9 dias de viagem mais ou menos calma. Os passageiros em número muito superior à lotação normal do navio, eram todos militares, uns mobilizados em rendição individual, como eu, outros, a esmagadora maioria, integrados em Companhias e Batalhões. Tudo me parecia um sonho, ou melhor um pesadelo. A chegada a Luanda ocorreu no dia 26 de Abril de 1971, também, por volta das 12 horas e só quando, por volta das 10 horas, comecei a avistar os primeiros contornos da costa, é que me mentalizei que ia para a guerra. E nesse momento começaram as minhas preocupações.
 
Sózinho, sem conhecer nada, com uma guia de marcha no bolso que apenas indicava como destino a CART 2731, pensava quando desembarcar o que é que vou fazer? Como vou conseguir chegar à CART 2731? Onde é que isso fica? As minhas preocupações já eram mais estas do que o facto de ir para a guerra. Com o objectivo de conseguir ajuda, ainda a bordo do Vera Cruz, estabeleci diálogo com um 1º sargento, homem experiente, que já ia na sua terceira comissão, que me disse quando chegam navios com tropa estão sempre camiões militares no cais que asseguram transporte para o Grafanil ou para o Depósito de Adidos. Apanhe um desses camiões com destino aos Adidos e quando lá chegar coloque o seu problema ao oficial-dia. Assim fiz, cheguei aos Adidos por volta das 13 horas, encaminharam-me para a Secretaria, onde um sargento me disse que ia tentar saber em que zona estava a CART 2731, mas que já sabia que eu vinha a caminho e que já tinha sido escalado para fazer serviço e que por isso tinha de entrar imediatamente de sargento-dia (vim a saber mais tarde que este era um expediente normal dos mais velhos, para se baldarem aos serviços, sempre que chegavam maçaricos)
 
Passada uma semana informaram-me na Secretaria que a CART 2731 estava sediada no leste de Angola, pelo que me deveria apresentar no quartel de Nova Lisboa, para receber instruções. Deram-me o bilhete para o machimbombo (autocarro) e, no dia seguinte, logo pela manhanzinha lá fui eu, cerca de seiscentos quilómetros de viagem, com várias paragens, um calor abrasador, uma paisagem deslumbrante e lá cheguei a Nova Lisboa quase no final do dia. A paragem do machimbombo ficava junto à estação dos Caminhos de Ferro e dali até encontrar uma residencial tive de percorrer cerca de um quilómetro a pé, porque táxis era coisa que não havia por aquelas paragens. Como tinha de transportar duas malas pesadíssimas, que continham as coisas que eu considerei indispensáveis para os dois anos de comissão, tive de recorrer a um estratagema: deixava uma mala para trás e ia colocar a outra cerca de 100 metros mais à frente, sem nunca perder de vista a que ficava para trás, voltava atrás e ia recolher a mala que tinha deixado. E assim repeti a operação cerca de uma dúzia de vezes, até que finalmente encontrei uma residencial a meio da avenida, se a memória não me atraiçoa, a residencial Porto, onde pernoitei uma semana.
 
Na manhã do dia seguinte dirigi-me ao quartel de Nova Lisboa e a resposta foi a mesma que me foi dada pelo quartel dos Adidos, que iam tentar saber onde estava a CART 2731 e que passasse por ali no dia seguinte. Esta lengalenga manteve-se também por mais uma semana, até que resolveram "despachar-me" para o Luso. Convém referir que em Nova Lisboa nunca me puseram de sargento-dia, fiquei com os dias totalmente livres.
 
Quando éramos mobilizados o Exército adiantava uma verba de 1.000$00, que era descontada no primeiro ordenado, o equivalente nos dias de hoje a 5€, para as despesas da viagem. Eu, para me precaver, levei, para além desse adiantamento, mais 2.000$00. Em situações normais os 1.000$00 seriam suficientes. Assim, em Luanda troquei apenas 1.000$00 por angolares e se fosse necessário logo trocaria mais. Quando os militares oriundos da Metrópole chegavam a Luanda, apareciam logo os candongueiros que trocavam escudos por angolares, pagando mais 10% (pelos 1.000$00 recebi 1.100 angolares). Estes negócios decorriam normalmente no largo fronteiro à Cervejaria Portugália, normalmente o ponto de encontro da tropa portuguesa.
 
Como fui mobilizado em rendição individual tive de suportar todas as minhas despesas de alojamento e alimentação até chegar à CART 2731, por isso os angolares voaram rapidamente.
 
Em Nova Lisboa já tive de trocar novamente os últimos 2.000$00 que me restavam. Como aqui já não era tão fácil encontrar pessoas para efectuar a troca, resolvi dirigir-me directamente à Agência do Banco Pinto & Sotto Maior, que ficava próxima da estação do caminho-de-ferro. Disseram-me que não era habitual efectuar esse tipo de troca mas que, por especial favor, podiam fazê-lo, mas que tinha que ser troca por troca, não havia acréscimo. Mesmo sabendo que estava a ser enganado, não me restou outra solução que não fosse aceitar (a necessidade assim o obrigava).
 
Após uma semana de permanência em Nova Lisboa lá segui para o Luso. Desta vez o meio de transporte foi o comboio, o célebre camacove, que parava em tudo o que era sítio, estações, apeadeiros, etc. Foram quase dois dias de viagem até ao Luso. Sai de Nova Lisboa ainda de madrugada e na noite desse dia, por motivos de segurança, o comboio ficou estacionado na estação do Munhango. No dia seguinte, também ainda muito cedo, o comboio retomou a sua marcha, tendo chegado ao Luso por volta das 13 horas de terça-feira, dia 11 de Maio de 1971.
 
comboio
As refeições eram tomadas no comboio, onde pernoitei também na estação de Munhango. Foi uma viagem inesquecível. O percurso era quase todo através da selva, onde a qualquer momento podíamos observar animais selvagens a correr ao lado do comboio. A esmagadora maioria dos passageiros eram militares. Quando o comboio parava, a estação ou apeadeiro, enchia-se de nativos, especialmente crianças, que aguardavam que os militares lhes dessem um lata de conserva ou um pacote de bolachas. Outros tentavam vender aos militares fruta da zona (bananas, manga, abacaxis, etc.) e recordações daquelas paragens (principalmente estatuetas esculpidas em madeira). Era um autêntico mercado ao ar livre, que decorria no espaço de dez ou quinze minutos, enquanto o comboio estava parado.
 
O quartel no Luso, onde me apresentei, distava pouco mais de 100 metros da estação e também aqui a conversa do sargento-dia foi a mesma: sabíamos que chegavas hoje, está na escala de serviço, já estás atrasado e tens de entrar de sargento-dia imediatamente. Enfim, lá alinhei mais uma vez.
 
Aqui já sabiam que a CART 2731 estava no Luvuei, a cerca de 300 quilómetros de distância do Luso, mas o problema era que o único meio de transporte para aquela localidade era o MVL (Movimento de Viaturas Logísticas), também designado por coluna militar, que era composta por várias viaturas civis com pessoas, equipamentos e mantimentos e várias viaturas militares para protecção e o MVL tinha saído nesse dia de manhã e só voltaria a haver MVL quinze dias depois.
 
Resultado mais duas semanas forçadas no Luso. Não é que não fosse agradável mas o problema é que os angolares já começavam a escassear. Arranjei uma residencial para pernoitar, mas o preço exorbitante por dormida, 105$00 por noite, não me permitiu ficar ali mais do que duas noites. A solução foi juntar-me a quatro furriéis que tinham uma vivenda arrendada e contribuir também para a renda. Assim a dormida passou a ficar-me por 20$00 cada noite.
 
Lá se passaram as duas semanas, uns dias de serviço no quartel, outros vagueando pelas ruas sem nenhum objectivo. Muitas horas foram ocupadas a ver futebol. É que, nesse ano de 1971, o Futebol Clube do Moxico estava a disputar um torneio distrital no Luso para apuramento da equipa que iria representar o distrito no Campeonato da 1ª divisão de Angola e as entradas eram à borla. Ainda me recordo alguns nomes de jogadores que faziam parte do plantel do Futebol Clube do Moxico, tais como, o Paixão (da CUF), Serra (do Barreirense), Vaqueiro (do Leixões), Carlos Rosário (do Nacional da Madeira). O Futebol Clube do Moxico ganhou o torneio e em 1973 viria a ser campeão provinicial de de Angola.
 
Tinha chegado o dia em que iria apresentar-me na CART 2731, terça-feira, dia 25 de Maio de 1971.
 
Logo pela manhã dirigi-me ao local onde era formado o MVL e apresentei-me ao comandante da coluna, o alferes Morais, dizendo-lhe que queria ir para a CART 2731. Ficou muito admirado por eu não trazer arma e eu fiquei a saber que, por coincidência, o referido alferes pertencia à CART 2731. Aconselhou-me a arranjar lugar numa das viaturas militares. Estava tudo ocupado à excepção da viatura que encabeçava a coluna, uma berliet, cheia de sacos de areia, que servia de rebenta minas.
 
E lá fui eu, não pensando no perigo que corria, sentado ao lado do condutor, até ao Luvuei. Pelo caminho houve breves paragens no Lucusse, onde estava sediado um Batalhão, e no Lunguebungo, onde estava instalado um destacamento de fuzileiros. A picada (caminho de terra batida) de Luso a Gago Coutinho era a mais minada de Angola, mas a viagem decorreu sem incidentes.
 
Verdadeiramente, cheguei à guerra, dia 25 de Maio de 1971, por volta das 18 horas, quase um mês depois de ter desembarcado em Luanda. Ainda me recordo da recepção do capitão Pimenta, comandante da CART 2731, que infelizmente já não está entre nós, sentado à porta do bar com um copo de whisky na mão “militar vais levar uma porrada, já chegaste a Luanda há um mês, andaste por aí desenfiado e nós aqui à tua espera”. Tentei justificar-me, mas logo percebi que aquilo não passava de uma brincadeira. Finalmente tinha chegado à guerra.
 
Franquelino Santos
Ex furriel miliciano - CART 2731
Angola, 1971
 
Última actualização em 2008-06-30
Franquelino Santos, Ex- Furriel Mil. da CART 2731
publicado por Franquelino Santos às 11:19
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4 comentários:
De Aníbal Reis. ex: 1º. Cbo rádio telegrafi a 24 de Setembro de 2020 às 12:04
Boa tarde Camarada . Hoje já somos Velhotes dentro dos setenta mas a sua História faz-me vir à memória também a minha ida para Angola pois também viajei no Vera Cruz no mês antes do meu amigo (saí de Lisboa no dia 12 de Março de 71). Também fui em rendição individual mas tive a sorte de ter ficado em Luanda à chegada pese embora fosse para Serpa Pinto passados 15 dias e ter ficado por lá durante seis meses e regressado ao ponto de partida. Ao contrário do amigo tive a sorte de viajar em viagem civil e ser acompanhado por uma Irmã que se ia encontrar com o Marido pois estava lá como Polícia.. Enfim História das nossas vidas perdidas durante dois anos. Grande Abraço.
De Anónimo a 25 de Setembro de 2020 às 09:38
Obrigado pelo seu comentário. Grande abraço
De AGS a 13 de Dezembro de 2020 às 18:14
Camarada Essa aventura é digna de ser comparada com a Guerra do Raul Solnado Mas não está sózinho Eu próprio tive de pagar do meu bolso uma viagem num barco de porcos e galinhas do Sul da Guiné para Bissau . Cinco escudos á época . Para me juntar á minha Unidade que tinha sido deslocada para o Centro da Provincia enquanto estive em Diligência temporária noutra Unidade De Bissau para Teixeira Pinto Foi outra aventura Pois não havia qualquer forma de transporte Só colunas Militares de tempos a tempos Só que eu não era do Exercito Tive de mendigar para conseguir viajar em cima duma Berliet o dia todo Chegado lá tambem tive de procurar onde ficava a minha GUERRA . Vidas .
De Franquelino Santos a 14 de Dezembro de 2020 às 19:52
E quantos de nós tivemos de passar por este tipo de situações? Felizmente, na maior parte dos casos, conseguimos ultrapassá-las e voltamos vivos. Agora, apesar daquelas dificuldades, é bom recordar esses tempos.

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